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Coração de estudante

  As manifestações do último domingo acabaram por obscurecer a efeméride do 15 de março, quando se completaram 30 anos da transição do regime militar para o civil. E, por consequência, impediram de se prestar o tributo devido ao grande artíficie da N...
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As manifestações do último domingo acabaram por obscurecer a efeméride do 15 de março, quando se completaram 30 anos da transição do regime militar para o civil. E, por consequência, impediram de se prestar o tributo devido ao grande artíficie da Nova República, Tancredo Neves.

Tancredo não apenas costurou politicamente o acordo que permitiria sua eleição no Colégio Eleitoral, fraturando o PDS e arregimentando os votos necessários para bater Paulo Maluf. Captou a insurreição popular nos comícios das Diretas e, depois, soube usá-la como combustível para pressionar seus potenciais eleitores, da Câmara dos Deputados, na eleição indireta. Foi uma campanha invulgar: mesmo sem condições de votar, os brasileiros saíam às ruas, em diversas capitais, para expressar seu apoio ao candidato do PMDB.

Eleito, temia não assumir. Por isso, antes da posse, percorreu Europa e Estados Unidos para ganhar legitimidade perante as nações mais importantes e dissuadir, assim, militares renitentes. Expunha ao mundo a nova face do Brasil: democrático e civil.

Na véspera da posse, já acamado, assinou a nomeação de todos os seus ministros, entre os quais o novo ocupante da pasta do Exército, a fim de garantir que na manhã de 15 de março não houvesse surpresas desagradáveis, como um golpe de última hora. Negou-se a ser operado até não poder mais – dizia que, primeiro, deveria tomar posse; depois, “que fizessem o que quisessem com ele”. Imolava-se pela democracia, temendo que Figueiredo não passasse a faixa presidencial a Sarney (o que, de fato, não fez).

A partir daí, entregava a vida aos incompetentes médicos de Brasília e aos apavonados doutores de São Paulo. Subiria a rampa do Palácio do Planalto apenas no caixão, quase quarente dias depois da data agendada.

Sua vida como presidente não seria fácil. Inflação, dívida externa, pobreza extrema – nada, mas nada mesmo, facilitaria sua vida. Sabia que gastaria seu capital político em pouco tempo. Mas talvez seu mandato tivesse sido diferente do de Sarney não apenas em função da legitimidade que o revestia; Tancredo não era adepto da heterodoxia econômica, dizem os que privaram com ele. Dificilmente teria autorizado a aventura do Plano Cruzado, pois sabia que estava nos gastos governamentais a semente do aumento dos preços. Tanto que a primeira frase de seu discurso de posse, jamais lido, seria um sugestivo “é proibido gastar”.

Já que no último 15 de março não foi possível prestar-lhe a homenagem devida, cabe não esquecer que no próximo dia 21 de abril completam-se 30 anos de sua morte, no Hospital do Coração, em São Paulo. Tancredo foi um mártir da democracia – a mesma da qual todos os que saíram às ruas domingo fizeram um belo uso em diversas cidades brasileiras.

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Sábado, 31 Outubro 2020

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