Mudança de patamar

O Pará é o estado com maior possibilidade no país de aumento do valor das exportações para a China em 2030, em termos absolutos
Até que ponto a concentração das exportações em minérios, soja e madeira é boa para o desenvolvimento do estado?

O Pará é o estado com maior possibilidade no país de aumento do valor das exportações para a China em 2030, em termos absolutos, atingindo estimados US$ 19,4 bilhões, 129% a mais em relação à média do período 2017-2020, de US$ 8,5 bilhões anuais. Esse crescimento recorde, a nível nacional, estaria concentrado em 20 produtos, segundo os critérios utilizados no estudo Exportações dos estados brasileiros para a China – Cenário atual e perspectivas de diversificação, de autoria de Fabrizio Panzini, publicado – e disponível para download – pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) em fevereiro de 2023. E o Pará é também o estado com o maior percentual das exportações para a China – 65% do total de US$ 21,4 bilhões obtidos em 2022 (com saldo positivo de US$ 18,7 bilhões). Em 2021, a participação chinesa (57,3%) nas exportações paraenses foi recorde nacional, com crescimento de 23,9 pontos percentuais em relação a 2012, quando a China comprou 33,4% de tudo o que o estado vendeu para o mundo.

A evolução recente dos valores das exportações do Pará para a China é realmente espantosa – saltaram de US$ 2,4 bilhões em 2015 para US$ 21,4 bilhões no ano passado. No período 2012-2022, o Pará exportou para a China um total de US$ 93 bilhões, concentrados em cinco produtos primários, segundo o estudo de Panzini: "minério de ferro; soja, mesmo triturada; minério de cobre; minério de manganês; e pasta química de madeira para dissolução". Objetivamente, até que ponto essa concentração das exportações em minérios, soja e madeira é boa para o desenvolvimento do estado? Quanto desses US$ 93 bilhões ficou efetivamente na economia estadual, se essas atividades empregam pouco, raras empresas exportadoras são paraenses, e os royalties e impostos gerados são residuais, em relação a todos os recursos naturais não-renováveis extraídos em grandes volumes? Essas reflexões se tornaram mais urgentes, dada a velocidade com que aumentaram os volumes de minérios exportados e os impactos deles resultantes sobre a vida da população.

Em seu trabalho de conclusão de curso, em 2021, da Faculdade de Geologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), intitulado "A sino-dependência da economia mineral paraense: exportações de bens minerais para o mercado chinês e efeito a médio e longo prazo", Lilian Sofia de Barros Viana analisa essas questões em profundidade, com grande riqueza de dados, e expõe a vulnerabilidade da economia estadual frente ao seu produto principal (84% das exportações paraenses são minérios) e ao maior cliente, responsável pela compra de quase 70% das 159 milhões de toneladas de minério de ferro exportado em 2022. Para que se tenha noção aproximada do que ocorre no estado, dos cinco municípios brasileiros que mais exportaram em 2022, o terceiro e o quinto maiores são Parauapebas (US$ 7 bilhões) e Canaã dos Carajás (US$ 5,8 bilhões), e esses valores são exclusivamente de minérios. Mergulhei nesses números das exportações do estado porque estive em Belém, em fevereiro, e em Paragominas, em março, para palestras sobre Oportunidades de Negócios com a China, em seminários ocorridos nessas duas cidades, a partir das expectativas criadas pela ida da comitiva brasileira à China no final de março/início de abril e por ter um vínculo forte com o Pará – sou filho e neto de paraenses, vou ao estado há quase 50 anos, trabalhei no início (1979) da ColonizaçãoTucumã, em São Félix do Xingu, e divulgo a China no estado e o Pará na China desde 2005.

Mudança de patamar
Resta evidente, pelos números e o perfil das exportações, que passa da hora do Pará "mudar de patamar" na relação com seu maior cliente. O estado precisa negociar para obter do seu maior parceiro investimentos em ferrovias e portos, fluviais e marítimos, em preservação ambiental e bioeconomia, e em ciência, tecnologia e inovação. Apesar de ser favorecido pela proximidade do canal do Panamá, a maior parte dos minérios que saem do Pará são exportados pelo porto de Itaqui, no Maranhão, graças à ferrovia que liga Parauapebas a São Luís (MA). A logística de exportação paraense ainda é frágil e muito cara. Faltam trechos ferroviários entre as regiões grandes produtoras (minérios, grãos e carnes) e os portos de Barcarena e de Belém, na saída para o Atlântico – e toda essa região precisa ampliar e modernizar a estrutura portuária e de armazenagem e contar com mais opções de modais, além do rodoviário, campeão em custos. Para escapar do calado insuficiente, fazer embarque offshore de cargas.

Faltam aeroportos regionais com pistas adequadas, equipamentos básicos de segurança e terminais de cargas e passageiros construídos para 2030. Paragominas, por exemplo, grande produtor de grãos, bauxita, madeira e carne bovina, tem uma pista de pouso fazendo as vezes de aeroporto, que definitivamente não está à altura do dinamismo da economia do município. Se o Pará revolucionar a logística nos próximos anos, poderá ampliar a sua pauta de exportações para o mundo inteiro, além dos 20 produtos previstos no estudo, e principalmente para a China, que além dos minérios compra também do Pará carne bovina e soja – está em quantidades crescentes, desde as primeiras 67 mil toneladas, em 2003, até atingir o recorde de 1,5 milhão de toneladas, em 2019. Poderá comprar milho, dendê, castanha, açaí, girassol, sorgo, carne suína, ovina e de frango, óleos de copaíba, andiroba e pau rosa, peixes (inclusive os ornamentais), sucos de frutas, fibras vegetais e subprodutos a partir da fécula de mandioca.

A China segue disparada para se consolidar como o maior mercado consumidor do mundo, com um PIB per capita esperado para 2027 de US$ 20 mil, três vezes o indiano e quase o dobro do brasileiro. Tanto poder de compra de sua população resultará em mais importações de alimentos e de tudo o que houver, inclusive para o bilionário e crescente mercado de luxo. O Pará tem tudo para se beneficiar mais da sua relação com a China, e deve fazê-lo, porque grande parte da população do estado ainda vive com dificuldade. A região metropolitana de Belém é uma das mais carentes do país, campeã em falta de saneamento, e todas as cidades do interior sofrem com a falta de infraestrutura básica.

Uma boa notícia é a atuação do Instituto Confúcio no Pará, em parceria com as universidades Estadual do Pará e Normal de Shandong. A parceria da UEPA com a Universidade de Shandong para a criação do Instituto significa muito: Confúcio nasceu em Qufu, próxima a Jinan, capital da província, onde fica a universidade, que é uma potência em termos educacionais: 37 mil alunos em tempo integral, 24 faculdades, 79 cursos de graduação, oito centros de pós-doutoramento, 76 programas de doutorado e 165 programas de mestrado. Shandong é a segunda província mais populosa da China (101 milhões de habitantes), tem vários portos e cidades importantes, e um PIB de US$ 1,3 trilhão em 2021 (equivalente ao PIB do México).

Instalado em outubro de 2016, com a perspectiva modesta de atender uma ou duas turmas de 30 estudantes de mandarim, o Confúcio do Pará acabou se virando em dez para dar conta da demanda surpreendente: 120 em 2016, 526 em 2017, 763 em 2018 e 1310 em 2019 – ano com 180 alunos e alunas aprovados e certificados em proficiência em mandarim pelo Confúcio da China. De 2016 a 2020, 200 estudantes por ano, em média, receberam treinamentos HSK (I, II e III) e HSKK (oralidade em mandarim) e submeteram-se às provas nos três níveis iniciais do HSK. Segundo o diretor brasileiro, professor Antônio Carlos Braga da Silva, muitos ex-alunos já conseguiram trabalho em empresas chinesas ou com clientes na China. Tanto trabalho e bons resultados renderam ao Instituto Confúcio/UEPA o prêmio de Excelência, entre todos os Confúcio do mundo, na Conferência Internacional 2019 de Educação da Língua Chinesa, realizada na cidade de Changsha (capital da província de Hunan). Retomando as aulas presenciais esse ano, começou bem: 420 matriculados e a disposição de atender virtualmente pessoas de cidades do interior interessadas em aprender mandarim.

Durante o seminário realizado em fevereiro, no Parque Tecnológico do Guamá, em Belém, ficou a impressão de que pouca coisa nova acontecerá na capital na relação com a China, apenas a retomada da relação de "cidade-irmã" com Shaoxing, na província de Zhejiang (65 milhões de habitantes e PIB de US$ 1,1 trilhão em 2022). Talvez essa disposição mude, se Belém realmente sediar a COP-30 – o evento exigirá infraestrutura e colocará a cidade no mundo como porta de entrada da Amazônia, condição também reivindicada por Manaus. Em contrapartida, nas visitas e evento da Investe Paragominas, as empresas manifestaram disposição de entrar no mercado chinês ou ampliar as vendas (caso das que já exportam). Muito interesse em atração de investimentos, logística e a novidade: créditos de carbono – a China é vista como o maior mercado, e o Pará um grande fornecedor. Empresas de Castanhal e Barcarena também participaram do evento em Paragominas, tal o interesse que desperta o mercado chinês no estado.

Cidade portuária decisiva para as exportações paraenses, Barcarena deverá realizar eventos sobre o Japão e a China em maio, com o objetivo comum de obter investimentos para desenvolver a economia do município e enfrentar a concorrência portuária que poderá surgir nos próximos anos – há a possibilidade de construção de portos em outros municípios da região, e em outras regiões do estado, para atender com transporte fluvial e marítimo de cabotagem a imensidão do território do Pará (1,2 milhão de quilômetros quadrados). Mais ferrovias onde forem possíveis, o que ampliará a importância do estado na solução logística "Arco Norte", das exportações de grãos do Cerrado para a China.

Esse conteúdo integra a edição 343 da revista AMANHÃ, publicação do Grupo AMANHÃ. Clique aqui para acessar a publicação online, mediante pequeno cadastro.

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Segunda, 22 Julho 2024

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