Copom mantém a taxa Selic em 15% ao ano

Comitê antecipou, no entanto, que corte pode iniciar em março
Para o Banco Central, o cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária

Com a inflação desacelerando, mas alguns preços, como o de serviços, pressionados, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) fez nesta quarta-feira (28) a primeira reunião do ano. Por unanimidade de sete votos, os membros do colegiado decidiram manter a taxa básica de juros em 15% ao ano. O Copom está desfalcado porque o mandato do diretor de organização do sistema financeiro, Renato Gomes, expirou no fim do ano passado. O governo federal só encaminhará a indicação do substituto na volta do Congresso Nacional no próximo mês. Os analistas de mercado já apostavam na manutenção da taxa no maior nível em quase duas décadas. A Selic está no maior nível desde julho de 2006, quando estava em 15,25% ao ano. De setembro de 2024 a junho do ano passado, a taxa foi elevada sete vezes seguidas, mas não foi alterada nas cinco últimas reuniões, incluindo a desta quarta.

Para o Copom, o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Na visão do colegiado, tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica. "Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação", destaca o texto divulgado logo após o encontro, por volta de 18h30.

"O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. [Por isso], o Comitê avalia que a estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros", aponta o comunicado. "O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", antecipa o Copom. O próximo encontro será nos dias 17 e 18 de março.

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, a Selic deve continuar em patamar bastante contracionista apesar do início do ciclo de cortes previsto para março. "Pelo menos para esse ano e após isso, claro que existe um fator eleitoral e isso tende a afetar bastante próximas decisões", observa. "O que a gente teve foi um tom, no geral, levemente menos restritivo em relação ao comunicado anterior, mas sinalizando que as projeções para o horizonte relevante começam a ficar mais próximas do centro da meta", avalia. "O comunicado reforça, principalmente, o mercado de trabalho e a inflação de serviços, que são dois pontos muito importantes na análise do Banco Central e que vinham restringindo um pouco mais de otimismo nos textos anteriores. Então, os membros do Comitê ressaltam que mercado de trabalho e inflação mostraram uma tendência de suavização também e melhora no sentido do que o Banco Central espera, embora ainda desafiadores", resume Perri.

"O Banco Central abre a porta, ou até eu diria que se compromete com um corte na próxima reunião, caso não haja nenhuma grande incerteza ou nenhum fator exógeno que mude radicalmente as perspectivas. Nesse cenário, espero um corte de 25 pontos-base em março, ainda mais pelo fato de o Copom ter citado a palavra serenidade para as próximas decisões. A bolsa deve subir nesta quinta-feira, dólar deve cair e a curva de juros deve fechar, já que o Comitê deixou bem explícito a possibilidade da redução", opina Perri.

Meta contínua
Pelo novo sistema de meta contínua em vigor desde janeiro do ano passado, a meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior é 4,5%. No modelo de meta contínua, a meta passa ser apurada mês a mês, considerando a inflação acumulada em 12 meses. Em janeiro de 2026, a inflação desde fevereiro de 2025 é comparada com a meta e o intervalo de tolerância. Em fevereiro de 2026, o procedimento se repete, com apuração a partir de março de 2025. Dessa forma, a verificação se desloca ao longo do tempo, não ficando mais restrita ao índice fechado de dezembro de cada ano. No último relatório de política monetária, divulgado no fim de dezembro pelo Banco Central, a autoridade monetária manteve a previsão de que o IPCA termine 2026 em 3,5%, mas a estimativa deve ser revista. A próxima edição do documento, que substituiu o relatório de inflação, será divulgada no fim de março.

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Quinta, 29 Janeiro 2026

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