Fiergs vislumbra um futuro de incertezas para o país

Cenário é fruto da situação da economia mundial, que mostra sinais de desaceleração
"A função do governo é fazer com que sobrem recursos para aplicar, e não trabalhar sempre no negativo causando aumento da dívida pública ou da carga tributária", avaliou Petry, ao comentar sobre as incertezas que preocupam os empresários

Durante apresentação de resultados de 2023 e expectativas para 2024, o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Giovani Baggio, utilizou-se de uma análise da última ata do Banco Central, publicada em 1 de novembro, para resumir o que esperar do próximo ano: houve, no texto, um recorde de 12 menções à palavra "incerteza" e seus derivados, sinalizando um momento de instabilidade econômica. "O recorde anterior era 11, em 2021, outro período muito turbulento. Então é uma mensagem que a gente traz. Temos muitos temas ainda indefinidos", alerta. Segundo a análise do economista, globalmente, após uma vigorosa recuperação em 2021, a economia mundial mostra sinais de desaceleração, impulsionada pela inflação decorrente de disrupções nas cadeias produtivas e desafios energéticos.

As políticas monetárias restritivas adotadas pelos Bancos Centrais para atenuar os efeitos da pandemia da Covid-19, e que trouxeram também inflação elevada, endividamento alto, aperto monetário e pressão salarial, contribuem para essa moderação no crescimento, refletindo em projeções abaixo da média dos últimos 22 anos. Reflexo disso, o crescimento econômico global deve fechar 2023 em 3%, abaixo dos 3,5% verificados no ano anterior, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Já no Brasil, o ano de 2023 se encerra com previsão de alta de 2,8% para o PIB nacional. A avaliação da Fiergs foi anunciada antes da divulgação do PIB do terceiro trimestre, que veio acima do esperado pelo mercado, e que pode elevar o índice de crescimento da economia no ano. A Fiergs foi a primeira das federações industriais do Sul a divulgar suas estimativas no dia 30 de novembro. A Fiesc fará isso na quarta-feira (13) e a Fiep ainda não definiu a data. 

Para 2024, a elevação prevista é de apenas 1,5%, com influência da queda de safra de grãos nacional, pela desaceleração do mercado de trabalho, que provocará impacto no setor de serviços, e pelos juros ainda elevados e um cenário internacional adverso. Além disso, a análise dos representantes da Federação ressaltou as turbulências no cenário fiscal brasileiro. A aprovação de uma PEC permitindo gastos adicionais fora do teto, juntamente com o fim da política de teto de gastos, ajudaram a levantar questões sobre o novo arcabouço fiscal. O orçamento proposto também foi alvo de críticas, com receitas incertas e despesas subestimadas, levando o mercado a questionar a viabilidade do déficit zero.

"A função do governo é fazer com que sobrem recursos para aplicar, e não trabalhar sempre no negativo causando aumento da dívida pública ou da carga tributária", avaliou o presidente da Fiergs, Gilberto Petry, ao comentar sobre as incertezas que preocupam os empresários e afugentam os investimentos, reconhecendo que 2023 está sendo um ano difícil também em função da questão climática. No país, a atividade econômica foi impulsionada pela expansão expressiva da agropecuária, dos serviços e da indústria extrativa. a agropecuária repercutiu a safra recorde de grãos, enquanto os serviços mostraram resiliência com o aumento da renda disponível por conta do impulso fiscal, da redução da inflação e de um mercado de trabalho ainda aquecido. entretanto, segundo a Fiergs, a indústria de transformação ficou praticamente estagnada devido à queda dos investimentos, o que é preocupante para o médio e o longo prazos. o investimento ocorre quando as condições financeiras estão favoráveis, em especial o crédito, mas também se há confiança em perspectivas promissoras.

Baggio avaliou, ainda, as dúvidas que pairam em torno da proposta de reforma tributária. "Reconhecemos a importância desse avanço em relação ao sistema disfuncional vigente, que penaliza a economia. Contudo, dentro do espectro de incertezas, diversas modificações e dúvidas pairam sobre o texto, levantando questionamentos sobre possíveis alterações e o desdobramento das leis complementares. A definição da alíquota de IVA é uma das incertezas que permanecem para o próximo ano", exemplifica. A questão do ICMS também foi abordada, com o reconhecimento de que impacta negativamente na competitividade e na capacidade de retenção de empresas no país. Segundo o economista-chefe da Fiergs, a perda de empresas para outros estados ao longo dos últimos anos é uma realidade, e há o risco de que essa tendência se aprofunde. Além disso, o fim da desoneração da folha salarial no piso regional é mencionado como um fator adicional que pode exercer impacto negativo sobre a economia.

Cenários para o Rio Grande do Sul
A produção industrial gaúcha registrou uma queda de 5,1% no acumulado do ano até setembro, em contraste com a estabilidade observada no Brasil. Para Baggio, em diferentes pesquisas realizadas pela entidade, os empresários industriais gaúchos destacaram a demanda interna insuficiente, a alta carga tributária e os juros como principais fatores para o resultado negativo observado. Além disso, a chegada do El Niño trouxe prejuízos para toda a economia no segundo semestre. Fatores climáticos também preocupam para 2024. Em sentido contrário, o setor de serviços manteve um bom ritmo de alta no Rio Grande do Sul, assim como ocorreu no Brasil. A boa safra de grãos esperada para 2023 sofreu os impactos da estiagem no início do ano, porém, devido à seca ter sido menos intensa que a verificada no ano anterior, a agropecuária também deve apresentar crescimento expressivo este ano.

Em relação ao emprego no Rio Grande do Sul, a projeção da Fiergs para 2023 aponta para uma taxa de desemprego de 5%, semelhante à prevista para 2024, e indica a criação de cerca de 21 mil novos postos de trabalho no próximo ano. Para o Brasil, o panorama geral aponta para uma desaceleração na recuperação do emprego e renda em 2023, mesmo com forte queda no desemprego, mas que foi severamente influenciada pela saída de trabalhadores do mercado por não procurarem ocupação. Para 2024, é esperada a geração de 956 mil novos postos de trabalho no Brasil, uma redução em relação aos 1,5 milhão de vagas geradas em 2023.

Para 2024, após enfrentar dois anos de estiagem, os prognósticos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam aumento de 39,4% na safra de grãos para o Rio Grande do Sul em comparação a 2023. Isso influencia na produção como um todo, pois os ciclos econômicos no Rio Grande do Sul estão intimamente vinculados à produção agrícola, dada a sua interconexão com vários segmentos industriais e de serviços. A expectativa de taxa de crescimento de 4,7% do PIB gaúcho para o próximo ano leva em conta uma forte elevação da agropecuária (37,1%), avanço na indústria (1,8%) e nos serviços (1,5%). Mesmo com esse resultado, a alta resulta em um PIB apenas 1,8% acima do nível de 2021, o equivalente a crescer a uma média de 0,6% no período de três anos. No caso da Indústria gaúcha, fazendo a mesma comparação, o setor deve chegar ao final de 2024 ainda 1% abaixo do PIB industrial de 2021, o que equivale a cair em média 0,3% ao ano no triênio.

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Sexta, 23 Fevereiro 2024

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