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Intérpretes da China

Existem menos profissionais de português, por isso cobram caro. Existem muito mais de espanhol e de inglês, mas nem por isso cobram muito menos
Quem vai à “Canton Fair” costuma ser convidado a visitar indústrias da cidade ou da região e a conhecer pelo menos um dos municípios vizinhos

Brasileiros na China devem utilizar intérpretes chineses, mesmo em cidades onde muita gente fala inglês, como Beijing, Shanghai e Hong Kong? Ou compensa cortar a despesa com esse profissional – que não é pequena –, já os seus interlocutores na China falam inglês e tudo poderá ser resolvido entre vocês recorrendo-se a essa terceira língua? E mais, se optar pela contratação de intérpretes, como fazer para que esse serviço realmente compense?

Essas são algumas das dúvidas que sempre surgem para brasileiros que vão à China, em relação à utilização de intérpretes chineses de português, espanhol, inglês, e até de outras línguas faladas no país, já que além do chinês (ou "mandarim"), falam-se também línguas oficiais de etnias minoritárias, como o tibetano e o mongol, e de regiões muito populosas, como as de Shanghai e Guangdong. Na província de "Cantão" (Guangdong), por exemplo, além do chinês/mandarim, que é a língua nacional (putonghua, em chinês), seus 104 milhões de habitantes falam também o cantonês. Essa província recebe milhões de empresários do mundo inteiro, para as duas edições anuais da maior e mais antiga (desde 1956) feira da China, realizada em sua capital Guangzhou, e para muitas outras feiras e realização de negócios, nela e em Shenzen, Dongguan, Foshan, Nantong e Zhuhai, cidades próximas nas quais há grande quantidade de indústrias. Nessa região acontece boa parte do comércio exterior do país.

Quem vai à "Canton Fair" costuma ser convidado a visitar indústrias da cidade ou da região e a conhecer pelo menos um dos municípios vizinhos. Caso se aventure a ir sozinho, talvez passe alguma dificuldade, mesmo que saiba putonghua; ou, se falar apenas inglês, com certeza sofrerá para entender e ser compreendido em várias situações. Quando fui à feira de Cantão pela primeira vez, em 1997, contei com a ajuda valiosa de um cantonês que era intérprete de chinês. Na segunda vez, em 2005, fui com um intérprete de Beijing, que não falava cantonês, e ele se queixou de dificuldade de comunicação com taxistas e comerciantes. Das vezes seguintes, não houve dificuldade. Um intérprete, viajando comigo em Henan, passou aperto para entender o chinês falado por habitantes dessa província, vizinha de Shandong, sua província natal.

Aprende-se muito com intérpretes de chinês, principalmente sobre aspectos culturais do país, e esse "plus", de alto valor, precisa ser considerado quando se avalia o custo da contratação de profissionais para acompanhar uma comitiva por uma semana ou mais. Da mesma forma, deve-se incluir na análise o risco que o intérprete representa para a empresa e/ou o negócio que se pretende fazer. Passamos situações nas quais o(a) intérprete tentou nos roubar o cliente e/ou o negócio, e uma vez descobri a tempo que uma proposta havia sido pessimamente "traduzida", para dizer o mínimo. Há ainda intérpretes que falam muito baixo, ou sabem pouco a língua.

Compensa investir no trabalho dos intérpretes. Fornecer sempre, com antecedência, glossário dos termos técnicos e um "briefing" do que será tratado, incluindo informações sobre a empresa e, eventualmente, sobre os produtos objeto da negociação que será feita. Intérpretes dominam o básico da língua, não costumam saber termos específicos de diferentes áreas de conhecimento. Uma vez, durante as duas horas de viagem até uma empresa de transferência de embriões de ovinos, tive de explicar ao meu intérprete todo o bê-á-bá da reprodução animal, porque descobri que ele não sabia nada sobre esse assunto.

Outro aspecto importante: na China, a maior parte de quem trabalha como intérprete é jovem e mulher, ou, sendo mais preciso, mulheres jovens são a maioria nessa profissão (e em muitas outras de nível universitário também). Algumas delas falam muito baixo, outras ficam nervosas na hora de traduzir em reuniões com gente importante. Mas todas são inteligentes e esforçadas, procuram sempre fazer o melhor.

Existem menos intérpretes de português, por isso cobram caro. Existem muito mais de espanhol e de inglês, mas nem por isso cobram muito menos. Valores menores costumam ser aceitos por quem sabe menos a língua e tem consciência disso. Cobram menos, para conseguir o trabalho e poder praticar. Se for apenas para acompanhar em passeios e compras, menos mal contratar o mais em conta. Mas se for assunto importante, é decisivo testar o conhecimento da língua antes da contratação – não dá para descobrir, no início da reunião, que será necessário usar o inglês, ou adiar a reunião, porque o intérprete não é o mais adequado para aquela situação.

Existem brasileiros e brasileiras trabalhando como intérpretes chinês-português em Shanghai, Beijing e outras cidades da China, e poder contar com tais profissionais facilita para nós em "n" aspectos. Alguns vivem na China há muitos anos, possuem bastante conhecimento do país e domínio da língua – mas continuam sendo "laowai" (estrangeiro), e em alguns casos essa condição poderá mais atrapalhar do que ajudar.

Um outro aspecto importante: sempre ocorrem erros na tradução de quantidades. A divergência de grandezas (por exemplo, a quantidade de toneladas produzidas em uma fábrica ou a área de um município) é normal, mas perigosa. Até se chegar a um acordo sobre qual é realmente a grandeza em questão, às vezes leva-se um bom tempo. Para diminuir esse risco, o melhor é adotar o hábito, antes da reunião, de ler (e anotar os dados) sobre a empresa, seus produtos, a localização etc. Se for reunião com o governo de um município ou província, deve-se descobrir o máximo a respeito e memorizar as informações mais significativas. Ter parâmetros é fundamental, porque eles permitem saber, por exemplo, que o município em questão não pode ter 500 mil quilômetros quadrados, se a província da qual ele faz parte tem apenas 178 mil quilômetros quadrados...

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Sábado, 08 Agosto 2020

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