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Medo de sair

Nos acostumamos ao aconchego da vida em bolha, como se o mundo externo nos fizesse medo 
Equivale ao presidiário que, tendo liberdade condicional à vista, comete uma maluquice para não ser confrontado com o portão aberto

De Paris (França)

À medida que se aproxima a data do desconfinamento aqui em Paris, cresce o medo de sair às ruas. A que nome atende a síndrome? Se não estiver classificada, é tempo de que alguém o faça. A tipologia é mais ou menos assim: ora, se o indivíduo conseguiu não ser contaminado, tendo atravessado o período crítico da pandemia, que irônico seria sucumbir ao vírus justo agora, quando os ares primaveris acenam com promessas de felicidade. Ademais, nos acostumamos ao aconchego da vida em bolha. É como se o mundo externo nos fizesse medo. Equivale ao presidiário que, tendo liberdade condicional à vista, sabota-a na cadeia cometendo uma maluquice, só para não ser confrontado com o portão aberto. Nunca é demais repetir que cada um escuta uma voz interna que sussurra-lhe uma mensagem eloquente, quase sempre voltada para a cautela. É instintivo.

Visitando o museu da história da Polônia, lembro do depoimento de um resistente à ocupação alemã, que toda manhã se despedia dos pais, pegava o fuzil e ia à luta. Um dia o pai segurou-o pelo cotovelo à porta e, olhando-o nos olhos, disse o que ele jamais esqueceria. "Seu lugar é na rua. A causa é justa e vou entender que você morra pelo País. Só me prometa uma coisa: não vá morrer bobamente." O que seria isso nas circunstâncias? Ora, cometer um descuido, deixar que uma granada lhe explodisse nas mãos, entrar na linha de fogo cruzado sem cobertura, acender um cigarro na escuridão, urinar contra uma parede nua, pensar na namorada numa noite de lua, superestimar as chances, minimizar os perigos. É talvez por isso que, faltando poucos dias para poder ir além do bairro, dá vontade de fazer provisões e ficar entrincheirado nesse mundinho que me garantiu sobrevida.

Confinado há 52 dias num pied-à-terre da Margem Esquerda, há 40 anos não ficava tanto tempo numa só cidade. E acho que nunca passei tantas semanas sem sair do bairro. A depender da direção, chego em minutos a Notre-Dame, à Sorbonne, ao Panteão ou à rua Mouffetard. Essas são minhas referências de segurança, todos eles endereços que conheço há quase meio-século. A verdade, contudo, vai além da mera subjetividade pessoal. A área parisiense é considerada zona vermelha, ou seja, o vírus por aqui está em toda parte. Com o relaxamento do confinamento, é lícito esperar que recaia pressão sobre o sistema hospitalar em fins de maio. Aos novos infectados, somar-se-ão os que adiaram o tratamento de doenças crônicas. Dito de outra forma, aqui na pátria de Pasteur, só haverá tranquilidade com a vacina. Enquanto ela não vem, podemos ser emboscados tolamente. 

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Quarta, 05 Agosto 2020

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