A China ainda tem sede de vinho

Depois do boom que transformou o país em uma potência emergente da vitivinicultura, consumo e importações recuaram, mas novas regiões produtoras e mudanças no perfil do mercado mantêm o gigante asiático no radar mundial
Vinhedos de Ningxia: região do noroeste chinês ganhou espaço na produção de vinhos e pode se tornar um dos polos de expansão da vitivinicultura do país (Foto: Wang Peng)

O mundo do vinho e da uva se encontrará em Yinchuan, capital da região autônoma Hui de Ningxia, no noroeste da China, de 12 a 16 de outubro, no 47º Congresso Mundial do setor, e na 24ª Assembleia Geral da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). Vinte dias depois (5 a 10 de novembro), haverá em Shanghai a Feira de Importação da China e, logo em seguida, (10 a 12), a ProWine China. São duas oportunidades comerciais de primeira grandeza. Participar do 47º Congresso em Yinchuan, e das duas feiras em Shanghai, deve ajudar a descobrir o que está acontecendo com o setor do vinho na China, porque encolheu tanto, após o "boom" nas primeiras duas décadas do Século 21, quando o país despontou como a grande promessa de consumo, importação e produção própria.

Noticiamos aqui no Conexão Ásia, há oito anos, a realização, em Beijing, da 25ª edição do Concours Mondial de Bruxelles. Naquele ano, a China se destacou em qualidade e em área plantada – possuía a segunda maior do mundo, com 870 mil hectares (ha). Em 2025, a área com uvas da China (733 mil ha) foi a terceira maior do mundo, atrás da França (740 mil) e da Espanha (919 mil), e à frente da Itália (726 mil), Estados Unidos (415 mil) e Turquia (395 mil), os seis países com maior área plantada, segundo o relatório "State of the World Wine Sector in 2025", da International Organisation of Vine and Wine, publicado em maio.

O consumo de vinho no mundo atingiu seu ponto mais alto (250 mhl), em 2007, véspera da crise do setor financeiro dos Estados Unidos (EUA), de agosto de 2008, que se espalhou para o mundo. Somente em 2017 que o consumo mundial voltou a grandeza próxima (247 mhl) daquele patamar. Logo após veio a pandemia, e já se somam quatro anos consecutivos de queda do consumo, que atingiu 208 mhl em 2025, para uma produção de 227 mhl, no terceiro ano de queda. Grandes produtores, exportadores e consumidores de vinho reduziram bastante o consumo, entre 2020 e 2025, como a Itália (49,1 mhl para 44,4 mhl); França (de 46,7, para 36,1); e Espanha (de 40,9 para 28,7). A China baixou para menos da metade: de 12,4 mhl para 4,8 mhl. Quantidade que colocou o país em 18º lugar no ranking do consumo mundial de vinho, quase empatado com o Brasil (4,4 mhl).

Texto no site da Embaixada da China em Portugal, em 25/02/2008, a respeito do mercado chinês de vinho em 2007, informava o seguinte: "Novas lojas de vinho estão a abrir em Xangai, e em muitas outras áreas metropolitanas, quase todos os dias. Estima-se que existam pelo menos 40 lojas especializadas em vinho em Xangai e o mais surpreendente é que há 2.000 importadores de vinho na China. Como ambos os números brotam como cogumelos depois da chuva, não há dados fiáveis para documentar esse crescimento. No entanto, as estatísticas sobre as importações de vinho engarrafado recentemente lançadas pela alfândega chinesa "revelam que o Império do Médio se encontra em febre vitivinícola".

Segundo a OIV, "a China registrou uma das expansões de vinhedos mais rápidas do mundo entre 2000 e 2015, atingindo mais de 800 mil hectares de terras cultivadas com uvas." Registre-se que essa expansão ocorreu na contramão do movimento de redução da cultura – no mundo, a área total plantada recuou de 7,8 milhões de ha (2000) para 7 milhões em 2025 (sexto ano consecutivo de retração).

Alterações no mercado de vinho chinês são acompanhadas com lupa na Europa e nos Estados Unidos (EUA) – cujo Departamento de Agricultura (USDA), em seu boletim nº CH2026-0097, de 29/07/2026, informa que, entre 2021 e 2025, o país reduziu gradualmente as importações de vinho da França, Chile, Itália e Espanha, seus quatro maiores fornecedores, e voltou a comprar da Austrália em 2024 e 2025, em quantidade superior ao que importou da França em 2023/2025. Em valores, o total de importações de vinho da China em 2025 alcançou US$ 1,4 bilhão, segundo os dados da Administração Geral da Alfândega da China (GACC). Comprou 14,6% a menos do que em 2024, em valor total, e 26,7% a menos em quantidade. A boa notícia, segundo o USDA, é que "o preço médio de importação subiu para aproximadamente US$ 6,86 por litro, um aumento de 22% ano a ano, sugerindo mudança para importações menores, porém de maior valor".

Por isso, é importante cautela na análise do que está ocorrendo no mercado chinês, que segue a tendência de redução do consumo e área plantada da maioria dos 20 países maiores produtores, mas... que bem pode ser apenas adequação às características do mercado interno, com ajustes mirando os segmentos dos jovens, eventos oficiais e de empresas, e a forte concorrência de outras bebidas, mais populares, como a cerveja e o baijiu (licor à base de cereais, principalmente sorgo, tido como a bebida nacional da China). A política chinesa de crescer via aumento do consumo doméstico, e, ao mesmo tempo, conseguir abastecer a população dependendo cada vez menos de importações, coloca para o setor de vinho no país o desafio permanente de aumentar a produção, melhorar a qualidade para concorrer com produtos importados, e... disputar as prateleiras dos supermercados dos EUA, grande consumidor (seis vezes mais do que a China), e do Brasil, cujas empresas, em sua grande maioria, seguem focadas no mercado interno, disputando espaço com vinhos argentinos, chilenos, europeus e de outros países.

As exportações mundiais em 2025, de 94,8 mhl, totalizaram 33,8 bilhões de euros, dos quais menos de 4% foi compra da China. Quanto desse produto importado foi consumido pelos 35 milhões de turistas (europeus, latino-americanos, estadunidenses), que têm o hábito de tomar vinho? Esse universo deverá aumentar muito nos próximos anos, graças à liberação do visto, à propaganda de destinos turísticos e à facilidade crescente de viajar no país. Ainda há muito por conhecer sobre a estrutura de produção e o mercado consumidor de vinho na China. Com a migração da produção, de Shandong e Hebei, no Leste, para Ningxia (noroeste) e Xinjiang (oeste), o potencial de ampliação das áreas plantadas é enorme, aproveitando o trabalho de regeneração de áreas desérticas e semiáridas. Maior produtor de algodão do país, com área maior do que a do estado do Amazonas, Xinjiang tem espaço de sobra para o cultivo de uvas.

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Sexta, 25 Setembro 2026

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