Somos o que podemos ter

As perdas materiais, nas enxurradas gaúchas, também são de vidas
As "coisas" reúnem nossa identidade – passado, presente e futuro –, lugares a qual pertencemos e pessoas com as quais nos relacionamos

Em meio a uma das transmissões ao vivo das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul na primeira metade de maio, o jornalista Luciano Potter, da Rádio Gaúcha, fez um comentário preciso. Ao ver a imagem de carros tombados nas margens de uma estrada do interior, ele lembrou que, a todo tempo, falava-se que a prioridade era salvar vidas, em detrimento de casas, veículos, estabelecimentos e objetos. "Mas quanta vida existe em cada uma dessas coisas?!" lembrou ele. Com toda razão. As "coisas" reúnem nossa identidade – passado, presente e futuro –, lugares a qual pertencemos e pessoas com as quais nos relacionamos. Refletem nossos esforços, preferências, origens, heranças e lembranças, e, uma vez perdidas, levam consigo todos esses atributos. Mesmo que seu proprietário sobreviva, uma parte dele morre com elas.

Daí que a reação à campanha publicitária do novo iPad tenha despertado tanta antipatia. Nela, uma prensa destrói uma montanha de objetos analógicos, como instrumentos musicais, máquinas fotográficas, livros e latas de tinta, para indicar que, de agora em diante, são dispensáveis: todas as suas funções estão reunidas no gadget da Apple (assista aqui). A peça parece ter mexido com os brios saudosistas de muita gente que vem questionando o excesso de utilização de eletrônicos e supervalorizando o que não esteja conectado à internet ou dependa de eletrônica sofisticada para funcionar. Além de, a meu ver, não representar exatamente aquilo a que a Apple se propunha: todos os objetos deveriam entrar no iPad, incorporando-se a ele, e não ser prensados até se fundirem no aparelho.

E de guardar uma certa arrogância, também. Em meio à catástrofe gaúcha, energia elétrica e sinal de internet tornaram-se escassos. Já a necessidade de se manter informado sobre previsão do tempo, existência de abrigos e iniciativas de voluntários não cessou, evidentemente. A solução? Rádios de pilha, arrecadados e distribuídos entre os refugiados climáticos por uma universidade de Santa Cruz do Sul como inquestionável "item de segurança". E, possivelmente, a maior companhia que muitos terão nos próximos meses, enquanto reconstroem suas coisas – isto é, suas vidas.

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Domingo, 21 Julho 2024

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