Minha primeira experiência com uma série: o caso Fauda

Não há efeito visual mirabolante, trucagem sensacionalista ou personagem figurante que sobre na história
A psicologia israelense e árabe, as idiossincrasias poderosas de povos tônicos, agrega um nível extra de tensão

Se resta ainda alguma coisa a ver de Fauda, deve ser pouco. Ontem mesmo, domingo, devo ter visto uns oito capítulos, o que é o equivalente ao tempo líquido de um voo Recife-Lisboa ou São Paulo-Caracas. Não vi os gols da primeira rodada do campeonato brasileiro, não vi casos de discriminação racial na televisão nem episódios de feminicídio o carro-chefe da estratégia de comunicação da Globo. Tampouco li jornal o que não acontece desde 24 de março ou li um livro. Mergulhado em Jenin, Khan Yunis, Gaza e Rafah, era perto da meia-noite quando parei para pensar no rescaldo de tantas aventuras. Até Bruxelas teve. As mortes de Moreno, Boaz e Avichai foram as que mais doeram, mas os romances trataram de compensar as perdas. Ver e ouvir Gabi cantando em árabe num casamento valeu a série toda. Confesso, no entanto, que só agora entendo o tremendo impacto delas na vida das pessoas. Começo a entendê-las. É como se eu tivesse cheirado umas carreiras de pó para entrar na pele de um dependente. Vamos ver se consigo sintetizar o que esse mundo me traz.

É compreensível que a pandemia para boa parte dos brasileiros que eu conheço gente que não passa por privações materiais maiores tenha sido uma época inesquecível de boa. Eu nunca tinha tido essa experiência antes e admito que deve ser uma delícia ficar em família assistindo às séries, fazendo uma pausa para as refeições e adormecendo com o raiar do sol para recomeçar tudo. Admito que o noticiário devia mesmo parecer um despropósito para essas pessoas e agora entendo porque o incremento de leituras foi muito discreto. As séries devem ter mobilizado lares inteiros. Não sei avaliar as consequências, mas dá para imaginar algumas. A tirar por mim, há uma imensa dificuldade de parar de ver, há uma fusão química com os personagens da tela e a história parece ser a coisa mais importante da vida enquanto está passando. Imagino, é claro, que isso se deve ao meu noviciado, mas não me espantaria que haja quadros muito mais agudos. No meu caso, a história invade o sono e vou dormir com uma adrenalina que nem a leitura de um livro excepcional proporcionaria.

Em Fauda, não há capítulo ruim. Não há palavra sobrando. Não há efeito visual mirabolante, trucagem sensacionalista ou personagem figurante que sobre na história. Nada irrita. Não há um detalhe que, se ignorado, não possa fazer falta mais na frente. Tudo isso engaja nossos sentidos. Se tocam o interfone, você para tudo. Perder um minuto é desperdiçar ouro. A sonoridade de duas línguas guturais, articuladas com clareza, realça a riqueza dos diálogos mordazes e algumas vezes ternos. A psicologia israelense e árabe, as idiossincrasias poderosas de povos tônicos, agrega um nível extra de tensão. Exteriores e interiores são pintados com majestade e apuro no detalhe. Da festa em Ramat Gan à despedida do mártir islâmico, gravada num valhacouto de Tulkarem, tudo é bem pensado. Nesse ponto, não sei se comecei pela série certa. Quanta cor terão as demais doravante? Hoje, ao despertar em plena segunda-feira, apesar de ser um dia atarefado de uma semana curta, é grande a tentação de ver um episódio. Nem que seja para trazer a marca maior do domingo para a rotina.

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Comentários: 1

Rodrigo Schramm em Terça, 18 Abril 2023 11:44

Outra série muito boa do Netflix é O Espião, que conta a história real de um agente secreto israelense dentro do governo sírio, na década de 60. Imperdível também.

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