Os sinais mistos enviados pela China

A economia do gigante asiático desacelerou e pode trazer consequências para o Brasil 
As vendas de imóveis pioraram nos primeiros dez meses do ano, apesar das medidas de Pequim para reverter uma prolongada crise imobiliária

Ainda pairam sobre o mercado importantes dúvidas quanto ao futuro da China. Depois de um início de ano animador, fruto do fim da política de Covid Zero, a economia do gigante asiático desacelerou. Os sinais sobre crescimento são mistos. E é consenso entre os analistas que, não fossem os estímulos promovidos pelo governo, a economia chinesa dificilmente alcançaria a meta de crescimento mínimo de 5%. Na tentativa de aquecer a economia, o Banco do Povo da China (PBoC) decidiu na semana passada manter o juro da linha de empréstimo de médio prazo (MLF) de um ano em 2,5%. Com a operação, a autoridade monetária injetou 1,4 trilhão de yuans no sistema. Na semana passada, o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS) do país divulgou números animadores sobre a produção industrial e as vendas no varejo de outubro. As duas aceleraram e superaram as expectativas dos analistas. A produção industrial chinesa subiu 4,6% em outubro ante igual mês do ano passado, frente a uma alta de 4,5% em setembro e expectativa de analistas de 4,3%. As vendas no varejo avançaram 7,6% na mesma base comparativa, também acima das projeções do mercado, que apontavam elevação de 7%. Em setembro, o incremento havia sido de 5,5%. Por outro lado, os números do setor imobiliário preocupam.

As vendas de imóveis pioraram nos primeiros dez meses do ano, apesar das medidas de Pequim para reverter uma prolongada crise imobiliária. Em valor, as vendas caíram 3,7% nos dez meses até outubro. O investimento imobiliário retrocedeu ainda mais: 9,3%. Já construção de moradias iniciadas recuou 23,2%. Outro dado alarmante do NBS é sobre a demanda por petróleo nas refinarias do país, que caiu de 15,4 milhões de barris por dia para 15 milhões de barris por dia em outubro. Antes da pandemia, o país vinha numa crescente de investimento em moradias e no setor de infraestrutura. Segundo Michael Pettis, membro do Carnegie China, os investimentos do país nesses setores giram em torno de 20% a 30% do PIB anualmente, enquanto o investimento total é de 40% a 45% do PIB. Mas o setor não acompanhou a retomada no primeiro trimestre, quando a economia ganhou força em meio ao fim das restrições impostas pela política de Covid Zero. O setor imobiliário chinês segue marcado por calotes de dívida e pedido de proteção contra falência de grandes incorporadoras. 

A crise da construtora Evergrande, que estourou em 2021, está longe de ser a única preocupação para o setor. A economia chinesa tem grande importância para o Brasil. "Desde 2008, a China é o maior mercado para exportações brasileiras, principalmente para soja, milho e outras commodities não processadas", lembra Carlos Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC) e ex-diretor de política econômica e dívida do Banco Mundial. "A China é disparada nosso principal parceiro comercial, então uma desaceleração da economia chinesa, sem dúvida, tem um efeito sobre a exportação do Brasil, o que, por sua vez, tem um impacto no PIB", concorda Mauro Rochlin, professor de MBAs da FGV. Além da grande representatividade da China na pauta exportadora brasileira, é importante lembrar que as exportações representam parte relevante do PIB brasileiro. De acordo com dados do Banco Mundial, o comércio exterior sobre o PIB brasileiro alcançou 39% em 2021, o maior da série histórica, iniciada em 1960.

Em 2023, as exportações brasileiras têm batido recortes. No ano até o fim de outubro, a balança comercial acumula superávit de US$ 80,2 bilhões, com exportações de US$ 282,4 bilhões e importações de US$ 202,2 bilhões. Uma desaceleração da China, portanto, poderiam afetar o Brasil reduzindo o total exportado. "Há anos sabemos que a economia chinesa vai desacelerar. A expectativa é de o país volte a crescer em torno de 5% esse ano. Mas a novidade é que a situação geopolítica, com as tensões com os Estados Unidos, ficou mais complicada", afirma Carlos Braga, da FDC. "O grande problema é que existem desequilíbrios significativos, um deles é o comércio exterior. As exportações chinesas estão perdendo dinamismo para os mercados americano e europeu", diz o professor e ex-diretor de política econômica e dívida do Banco Mundial. Mesmo com a desaceleração, o crescimento chinês deve ser um dos maiores drivers da economia global, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Então, por que a demanda chinesa ainda preocupa o Brasil? Porque as mudanças pelas quais passa a economia asiática podem mexer exatamente com os produtos mais exportados pelo Brasil.

Em 2021, embarques aos portos chineses somaram US$ 88,3 bilhões e foram destino de mais de 30% das exportações brasileiras. Desse valor, minério de ferro (32,7%), soja em grãos (30,9%) e petróleo bruto (16,1%) dominam a pauta. A principal fonte de demanda para o minério de ferro é o setor de construção civil, em queda. Além disso, a China vem reiteradamente anunciando sua meta de alcançar a autossuficiência alimentar – o que pode ser um problema para os exportadores de grãos e carnes. O país, inclusive, vem investindo em tecnologia para expandir a produção própria de soja. No entanto, alimentar mais de 1 bilhão de pessoas não é tarefa fácil. "A China está fazendo um esforço dramático, mas deve continuar dependendo significativamente de países como o Brasil e a Argentina", reitera Braga.

Além da possível queda nos volumes embarcados pelo Brasil, outro impacto é no preço das commodities. Como a China representa uma grande parcela da demanda global, uma redução nas compras tem o potencial de derrubar os preços dos produtos no mercado internacional – inclusive os preços do petróleo, que afetam todas as demais commodities. Com a desaceleração da economia chinesa, outra linha importante para o crescimento brasileiro pode sofrer: a dos investimentos estrangeiros diretos. A participação da China cresceu nos últimos anos e levou o gigante asiático à lista dos cinco maiores investidores no Brasil. Com aportes da ordem de US$ 29,9 bilhões em 2021, o dinheiro que vem da China representa 5% de todo o capital estrangeiro que entrou no Brasil naquele ano, segundo dados divulgados pelo Banco Central. "Caso o crescimento da economia chinesa fique menor, devemos ver cair também o investimento direto chinês no Brasil", afirma Rochlin, da FGV.

Com Redação da B3

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Segunda, 26 Fevereiro 2024

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