Tecnologia

Para a PipeRun, a IA abriu um terceiro caminho

Com APIs e MCP, CRM passa a ser acessado por agentes como ChatGPT e Claude

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Fausto Reichert, cofundador e CRO da PipeRun, acompanhou o software empresarial do CPD ao SaaS e vê na inteligência artificial o início de um novo ciclo · Foto: Divulgação

Por Fausto Reichert, cofundador e Chief Revenue Officer (CRO) da PipeRun

Nos anos 1990 eu estava do lado de quem comprava software, trabalhando em empresas onde tecnologia ainda significava CPD, servidor próprio, sistemas instalados localmente e projetos que exigiam planejamento, infraestrutura e equipes especializadas. Ao mesmo tempo, minha formação em tecnologia me levava a aprender desenvolvimento, banco de dados e a lógica de construção dos sistemas que começavam a transformar as empresas.

No início dos anos 2000, atravessei a mesa e passei a atuar como consultor e fornecedor de software. Deixei de participar apenas das decisões de compra para também ajudar empresas a implantar, integrar e desenvolver soluções, até que, em 2015, por uma combinação de boas escolhas, boas parcerias e um pouco de destino, chegueiàPipeRun e comecei mais uma fase dessa trajetória.

Ao longo desse caminho, ajudei a comprar software, ajudei a desenvolver software, vendi software, participei de projetos internos e acompanhei praticamente todas as grandes mudanças desse mercado: desde o CPD e as software houses, passando pelo on-premise, pela internet, pela nuvem e pelo SaaS, até chegar ao momento atual, em que a inteligência artificial começa a mudar novamente a forma como as empresas pensam tecnologia.

Durante muito tempo, a discussão entre comprar ou desenvolver fazia bastante sentido, porque construir software era caro, lento e dependia de equipes altamente especializadas. Comprar uma solução pronta, por outro lado, normalmente significava aceitar processos, limitações e regras definidas pelo fornecedor. Isso obrigava muitas empresas a fazer escolhas difíceis entre flexibilidade, custo, velocidade e capacidade de evolução.

A inteligência artificial está mudando essa conta porque reduziu de forma significativa a barreira para transformar uma necessidade operacional em software, automação ou integração. Mas isso não significa que desenvolver internamente tenha se tornado automaticamente a melhor decisão. Escrever código ficou muito mais fácil, enquanto organizar processos, estruturar dados, definir regras de negócio, controlar acessos, manter a segurança e garantir a continuidade continuam exigindo disciplina e capacidade operacional.

É justamente por isso que acredito que a pergunta mais importante deixou de ser simplesmente “comprar ou desenvolver software?” e passou a ser: quais capacidades realmente precisam pertencer à empresa? Uma funcionalidade padrão, já bem resolvida pelo mercado e que não cria diferenciação, dificilmente justifica ser reconstruída. Já um processo diretamente ligado à margem, à velocidade, à experiência do cliente ou à capacidade de escala pode fazer muito mais sentido quando transformado em uma capacidade própria.

É dessa combinação que começa a surgir um terceiro caminho. Nele, a empresa não precisa escolher entre comprar tudo pronto ou desenvolver tudo do zero. Pode utilizar infraestrutura madura para aquilo que já está resolvido e concentrar seus esforços de desenvolvimento exatamente na parte que representa sua forma de operar, sua inteligência e sua vantagem competitiva.

Uma empresa pode continuar utilizando CRM, telefonia, WhatsApp, assinatura eletrônica, sistemas financeiros e outros serviços especializados, enquanto constrói suas próprias automações, agentes, integrações e experiências sobre essa base. Assim, aproveita aquilo que já existe e evita desperdiçar energia reconstruindo componentes que outros fornecedores já resolveram com mais maturidade.

É essa visão que estamos levando para a PipeRun, depois de anos construindo uma infraestrutura para organizar empresas, pessoas, oportunidades, atividades, processos comerciais e relacionamentos. Entendemos que o próximo passo não é apenas adicionar novas funcionalidades ao sistema, mas permitir que os clientes utilizem essa base para construir novas capacidades de forma simples, segura e integrada.

Com APIs, inteligência artificial e MCP, o sistema deixa de ser apenas um software com telas e funcionalidades prontas e passa a funcionar também como uma infraestrutura acessível por agentes. Isso permite que ferramentas como ChatGPT, Claude e outras aplicações compatíveis consultem informações, gerem análises e executem ações dentro do contexto e das regras da operação.

Na prática, isso significa que um gestor pode pedir um relatório em linguagem natural, solicitar uma análise de oportunidades paradas ou entender o comportamento da carteira. Um vendedor pode abrir o aplicativo no celular, enviar um comando por áudio e pedir para cadastrar uma empresa, criar uma oportunidade, registrar uma informação ou iniciar o envio de um contrato, sem precisar navegar por várias telas ou repetir manualmente etapas que o sistema já conhece.

Essa mudança parece simples na superfície, mas altera profundamente a relação entre pessoas e software. Durante décadas, fomos nós que precisamos aprender onde clicar, qual campo preencher, qual tela acessar e qual sequência executar. Agora começamos a entrar em um cenário no qual o sistema entende nossa intenção e transforma linguagem natural em ações dentro da própria operação.

Isso também muda o papel das empresas de software. O valor deixa de estar apenas na quantidade de funcionalidades disponíveis e passa a estar cada vez mais na qualidade da infraestrutura existente por trás delas, incluindo dados organizados, regras de negócio, segurança, permissões, estabilidade, integração e capacidade de permitir que os clientes construam novas soluções sem precisar recomeçar tudo do zero.

Depois de mais de 30 anos trabalhando com tecnologia, talvez seja essa mudança que mais me chama atenção. Não porque a inteligência artificial vá substituir todos os softwares existentes, mas porque ela começa a mudar a forma como esses softwares são utilizados, integrados e ampliados dentro das empresas.

Passei pelo CPD, pelas software houses, pelo on-premise, pela nuvem e pelo SaaS. Agora vejo uma nova fase começando, na qual as empresas poderão combinar infraestrutura madura com inteligência própria, utilizando software pronto onde isso faz sentido e construindo diferenciação exatamente onde isso gera valor.

Talvez, portanto, o futuro não seja escolher entre comprar ou desenvolver software, mas entender o que já está resolvido, o que realmente precisa ser próprio e qual infraestrutura permite que essas duas coisas convivam com liberdade, segurança e velocidade.

Depois de tantos ciclos, acredito que essa seja a próxima grande mudança do software empresarial.