A IA é a “bicicleta do cérebro”, defende pesquisador
Em palestra no Tecnopuc Experience, o professor e conselheiro detalhou o paradoxo entre a velocidade exponencial da IA e a urgência de governança e prontidão humana nas empresas

Se o computador é a bicicleta da mente, como definiu Steve Jobs na década de 1980, a Inteligência Artificial (IA) é a bicicleta do cérebro.
A metáfora, inspirada em um estudo de 1973 da Universidade de Oxford que provou que o ser humano sobre duas rodas é o animal mais eficiente do planeta em consumo de calorias por quilômetro, foi o fio condutor da palestra "A IA é a bicicleta do cérebro. Teste os freios", ministrada pelo professor da Fundação Dom Cabral, Alsones Balestrin, no Tecnopuc Experience.
A metáfora não é apenas poética, mas um alerta estratégico. A IA amplifica exponencialmente a capacidade humana, mas, sozinha, não leva ninguém a lugar nenhum. Chegar ao destino com segurança exige um ciclista preparado (o que o palestrante chama de “prontidão”) e um equipamento seguro, incluindo uma estrada com regras e sinalizações claras (governança).
Uma evolução sem precedentes
Para dimensionar o momento, Balestrin apresentou dados que escancaram a magnitude da transformação. Segundo projeções da ONU, o mercado de IA deve saltar de US$ 189 bilhões em 2023 para US$ 4,8 trilhões em 2033, um crescimento de 24 vezes em apenas uma década.
Em vez de "artificial", Balestrin defende o conceito de Inteligência Aumentada (proposto por Douglas Engelbart em 1962). Para ele, a IA não substitui o humano, mas atua como uma alavanca. Ou seja, ela amplia o acesso ao conhecimento especializado.
"É a primeira tecnologia na história que vem desafiar o trabalho intelectual: advogados, arquitetos, engenheiros e médicos. O trabalho manual, como o do jardineiro, está muito menos ameaçado do que o de um analista jurídico", refletiu.

As duas "más notícias"
Apesar do otimismo com o potencial transformador — que já permite detectar tumores 20% mais cedo, desenvolveu 30% dos novos fármacos no último ano, economiza 90% de herbicidas na agricultura via satélites e apoiou a proferição de 3,1 milhões de sentenças no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul —, o professor trouxe duas "más notícias" que exigem atenção imediata das lideranças.
A primeira é que a IA falha, por definição. "A única certeza científica é que ela vai falhar. Isso não é defeito, é propriedade". Citando o filósofo Karl Popper, Balestrin explicou que a IA não é uma ferramenta determinista, mas probabilística. Ela calcula a resposta mais plausível, mas não necessariamente verdadeira. “A IA não é um sistema técnico, é um sistema sociotécnico: envolve máquina, pessoas, dados e contexto", afirmou, referindo-se aos fenômenos de alucinações.
A segunda má notícia é o "gap da disrupção". Enquanto a tecnologia evolui em uma curva exponencial, as pessoas, os processos e a cultura das organizações evoluem de forma linear. "Pela primeira vez, lidamos com uma tecnologia que corre mais rápido do que a nossa capacidade de aprender sobre ela. É nesse abismo que empresas faliram, CEOs perdem o emprego e profissionais são demitidos", alertou.
Governança e prontidão
Se o risco é inerente, como adotar a IA de forma segura e ética? A resposta está no equilíbrio entre governança e prontidão "Se colocarmos muita trava, a empresa não sai do lugar. Se acelerarmos demais sem proteção, geramos riscos de vazamento de dados e responsabilização", pontuou.
O Brasil caminha para regular o setor com o PL 2338/23, espelhado no rigoroso EU AI Act europeu, que prevê multas de até R$ 50 milhões no Brasil. A regra de ouro global é que a IA não pode ter a última palavra em decisões que afetem direitos fundamentais.
Em entrevista exclusiva ao Portal AMANHÃ, Balestrin aprofundou a questão da prontidão humana. Ele alerta para o perigo do "shadow AI", o uso clandestino de ferramentas de IA generativa por funcionários que inserem dados sigilosos da empresa em sistemas abertos. Além disso, criticou a assimetria de investimentos. "O Gartner diz que para cada dólar investido em tecnologia, a empresa deve investir dois em capacitação", ressaltou.
Para o especialista, o repertório técnico, mas para avaliar os resultados gerados por ela em determinado campo de conhecimento, e a literacia em IA são fundamentais. "Profissionais experientes usam a IA para ampliar a produtividade e sabem filtrar os erros. O risco está nos jovens, que, sem experiência e senso crítico, aceitam as respostas da máquina como se fossem verdades determinísticas."
O espaço do improvável
Sobre a tolerância da sociedade, o professor faz uma reflexão: aceitamos o erro humano ("errar é humano"), mas não toleramos o erro da máquina. "Se um carro autônomo atropela alguém, é notícia no mundo inteiro. As organizações precisam estar preparadas para isso."
Apesar dos desafios regulatórios e éticos, para ele, o futuro não é distópico. Balestrin encerra a reflexão com uma visão sobre o papel do ser humano: se a IA processa dados, calcula probabilidades e prevê cenários com precisão milimétrica, o espaço do humano reside no oposto.
"A IA calcula o provável como ninguém. Mas o humano ousa o improvável." E é o improvável, segundo ele, a alma da inovação. "O improvável gera visão de futuro, afeto, empreendedorismo, coragem e esperança. A IA não faz isso. O espaço do improvável é a nossa salvação e o nosso diferencial", conclui.
Para as organizações que desejam percorrer o trajeto com segurança, fica o recado: é preciso pegar a bicicleta da IA, colocar o capacete, testar os freios, conhecer as regras de trânsito e, finalmente, pedalar. E, como ninguém aprende a andar de bicicleta sozinho, encontrar o apoio é o primeiro passo para não cair.