Conhecimento acessível: Ei, São Leopoldo
Estratégia de transbordamento conecta o parque tecnológico Tecnosinos à realidade urbana, focando em colaboração e resiliência num modelo de quádrupla hélice

Esse conteúdo é parte integrante da edição 353 da revista AMANHÃ. Acesse a publicação completa clicando aqui.
Por mais de vinte anos, o Tecnosinos funcionou como um ambiente isolado dentro de São Leopoldo. O parque tecnológico, que abriga empresas de tecnologia, de semicondutores e de engenharias, mantinha uma dinâmica autossuficiente, funcionando como um motor econômico potente, mas que parecia operar em uma frequência distinta da realidade urbana que o cercava. Essa estrutura mudou a partir de 2023, quando a governança decidiu que era necessário que as competências desenvolvidas ali alcançassem diretamente a cidade, em um processo que foi chamado de transbordamento.
A mudança de postura ocorreu durante uma reunião de governança. O diretor do Tecnosinos, Silvio Bitencourt da Silva, relembra o diagnóstico da época, trazido pela Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Tecnologia de São Leopoldo (ACIST SL). “O que tínhamos de bom aqui era quase como um oásis, mas poucos bebiam dele”, contextualiza. A partir dessa análise, surgiu a estratégia de disseminar a cultura empreendedora e as tecnologias desenvolvidas no parque tecnológico para o cotidiano do município, tornando o conhecimento acessível a uma parcela maior da população.
O plano de ação para modelar o Ecossistema de Inovação de São Leopoldo (Ei, São Leopoldo) ganhou tração com os desafios climáticos enfrentados pela região em 2024. As enchentes evidenciaram a necessidade de uma atuação conjunta, pois problemas complexos exigiam resposta coletiva. “A ideia de um ecossistema fazia sentido porque havia desafios que nenhuma instituição, individualmente, conseguiria resolver”, explica Bitencourt. Com o apoio técnico da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a adesão do Sebrae, o grupo evoluiu por meio de uma articulação que reuniu a universidade, empresas, governo e a sociedade.
Um exemplo prático dessa integração ocorreu em uma maratona de inovação focada em segurança pública, um dos cinco macrodesafios definidos pelo Ei, São Leopoldo. O evento reuniu estudantes de escolas públicas, do oitavo e nono ano, pesquisadores de mestrado e doutorado, além das forças de segurança locais, como a Brigada Militar e a Polícia Civil. O intuito foi debater caminhos para ampliar a sensação de segurança na cidade e, ao mesmo tempo, disse- minar o vocabulário da inovação.
O processo de transbordamento também exigiu ajustes na forma de comunicação. O diretor relata que receberam orientações fundamentais de conselheiros para simplificar a linguagem técnica utilizada habitualmente no ambiente acadêmico e corporativo, ressaltando a importância de popularizar as falas para incluir a comunidade no debate. “A ideia é que termos como inovação aberta ou pitch se tornem compreensíveis e aplicáveis por qualquer cidadão”, conta.
A iniciativa de inovação trouxe resultados expressivos para os diferentes atores envolvidos. No total, 42 empresas foram apoiadas e 25 novos empreendimentos surgiram. Além disso, 12 startups foram tracionadas e 18 produtos e serviços foram lançados ou pivotados, sem contar o lançamento de dezenas de projetos e contratos. O diretor também descreve sua visão sobre o impacto qualitativo da iniciativa com um tom esperançoso. “Foi muito mais do que um ecossistema pensado apenas em tecnologia da informação, mas um ambiente para pensar em desafios comuns da sociedade de São Leopoldo e da região”, comenta. Esse engajamento se traduziu em participação ativa nas reuniões e decisões que seguem moldando o futuro da cidade.
Com 110 empresas, faturamento anual superior a R$ 2,5 bilhões e histórico de 120 registros de propriedade intelectual, o Tecnosinos mantém suas operações enquanto integra a cidade ao seu fixo de desenvolvimento. A estratégia atual, baseada na governança de quádrupla hélice, focou em aproveitar os recursos disponíveis de forma combinada. Ao invés de criar algo novo do zero, a estratégia consistiu em aproveitar a potência de um parque tecnológico já consolidado, para congregar esforços e recursos, aumentando a capacidade de ação de todos os stakeholders. A iniciativa do Ei, São Leopoldo revela que a colaboração baseada na necessidade real faz da tecnologia uma ferramenta de transformação social e resiliência. A ação liderada pelo Tecnosinos também evidencia como a articulação entre poder público, setor produtivo e instituições de ensino é determinante para transformar ecossistemas em motores reais de desenvolvimento regional.
A iniciativa marca a trajetória de sucesso do Tecnosinos no Prêmio Campeãs da Inovação. Desde a criação da categoria dedicada aos Parques Tecnológicos em 2024, a instituição mantém a liderança, consolidando-se como referência no Sul no campo da inovação.