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Vinho brasileiro amplia presença regional, mas RS segue líder

Seleção da 34ª Avaliação Nacional de Vinhos reúne amostras de oito estados e do Distrito Federal entre as mais representativas da safra 2026

Homem tirando foto com celular da sua taça de vinho na ANV 2026.webp
Realizada em 17 de outubro, em Bento Gonçalves, a etapa pública da avaliação apresentou 16 amostras escolhidas para uma degustação comentada · Foto: Jeferson Soldi/Divulgação

A vitivinicultura brasileira ampliou sua presença geográfica na 34ª Avaliação Nacional de Vinhos – Safra 2026. Pela primeira vez, amostras de vinícolas de oito estados e do Distrito Federal figuraram entre os 30% mais representativos da safra, segundo os resultados divulgados pela Associação Brasileira de Enologia (ABE). O levantamento reuniu 191 amostras de 50 vinícolas, mas a distribuição regional ainda revela uma concentração expressiva: 167 amostras selecionadas são do Rio Grande do Sul.

Realizada em 17 de outubro, em Bento Gonçalves, a etapa pública da avaliação apresentou 16 amostras escolhidas para uma degustação comentada. Dessas, 14 são gaúchas, uma é catarinense e outra vem do Distrito Federal. O conjunto reúne 12 variedades de uvas e diferentes estilos, de vinhos-base para espumantes a brancos, rosés e tintos. A edição também marcou os 50 anos da ABE, fundada em 1976.

O resultado aponta para uma vitivinicultura que se diversifica territorialmente, embora o Rio Grande do Sul continue a concentrar a maior parte das amostras selecionadas. Além do estado, a relação dos 30% mais representativos inclui vinhos da Bahia, de Goiás, de Minas Gerais, do Paraná, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina, de São Paulo e do Distrito Federal. A presença de diferentes origens amplia o retrato da produção nacional, sem eliminar as diferenças de escala e de participação entre as regiões.

O frescor que vem de Santa Catarina

A única amostra catarinense entre as 16 escolhidas para a degustação pública é um Sauvignon Blanc da Quinta da Neve, vinícola instalada em São Joaquim, na Serra Catarinense. Produzido em uma região de altitude próxima de 1.200 metros, o vinho representa uma das expressões da vitivinicultura de clima mais frio desenvolvida no estado.

A presença da Quinta da Neve não é um caso isolado entre as amostras catarinenses avaliadas. Ao todo, quatro vinhos de Santa Catarina ficaram entre os 30% mais representativos da safra, incluindo três amostras da Vinícola Thera, também associada à produção de vinhos de altitude. A diferença entre os números evidencia o caráter mais restrito da seleção final: estar entre as amostras representativas não significa, necessariamente, chegar à degustação comentada.

O Sauvignon Blanc da Quinta da Neve alcançou mediana de seleção de 93 pontos. A enóloga Betina de Bem relacionou o desempenho às condições da safra, marcada por tempo seco próximo à colheita, que favoreceu a preservação do frescor e das características aromáticas da variedade. A combinação entre notas de frutas tropicais, nuances herbáceas e acidez é apontada como parte da expressão do vinho.

Brasília é tetra na ANV

A presença do Distrito Federal entre as 16 amostras da 34ª Avaliação Nacional de Vinhos – Safra 2026 tem como representante o Due Terre, tinto da Villa Triacca Hotel Vinícola & Spa, localizada em Brasília. Instalada na região do PAD-DF, a cerca de 60 quilômetros do centro da capital federal, a Villa Triacca combina produção de vinhos, hospedagem, gastronomia e bem-estar. A propriedade tem mais de oito hectares de vinhedos e estrutura de hotel boutique, restaurante, wine bar, cave para os vinhos e spa integrado à paisagem do Cerrado. As visitas incluem passeios pelos vinhedos e degustações, em uma proposta de enoturismo que aproxima o público das particularidades da produção vitivinícola no Planalto Central. A dupla poda, técnica que permite programar a colheita para o inverno, é um dos recursos empregados para adaptar o cultivo às condições climáticas da região.

Elaborado com Syrah, Marselan e Cabernet Franc, o vinho traduz uma particularidade do projeto vitivinícola da família Triacca: explorar as diferenças entre dois microterroirs separados por apenas 50 metros. O nome, que significa “dois solos” em italiano, faz referência às condições em que as uvas são cultivadas. A Syrah cresce em latossolo vermelho-amarelo, rico em argila, enquanto a Marselan e a Cabernet Franc vêm de um terreno pedregoso, classificado como plintossolo pétrico, com presença de óxidos de ferro e manganês. Para Ronaldo Triacca, sócio-fundador da vinícola, as características distintas dos terrenos contribuem para a identidade do corte.

Na terceira safra do vinho, a composição reúne 50% de Syrah, 35% de Marselan e 15% de Cabernet Franc. O amadurecimento ocorre predominantemente em barricas de carvalho francês, em sua maioria de segundo uso. O Due Terre está entre os rótulos preferidos de Triacca e já recebeu medalhas de ouro no BWC e no GPVB, além de prata no Decanter World Wine Awards, em Londres, com a safra 2024.

A Villa Triacca foi selecionada pelo segundo ano consecutivo: em 2025, com um Marselan; em 2026, com o Due Terre. Mas, como resume Ronaldo Triacca, o resultado vai além da trajetória da própria vinícola. “A Villa Triacca é bi, mas nossa região é tetra”, comemora, em referência às quatro participações de vinícolas do Distrito Federal entre as amostras escolhidas para a degustação pública da ANV: a Vinícola Brasília, em 2023; a Ercoara e a Villa Triacca, em 2025; e novamente a Villa Triacca, nesta edição. A sequência evidencia que a produção de vinhos finos no Planalto Central vem conquistando espaço em uma avaliação historicamente associada ao Rio Grande do Sul.

“Falo sempre que é mais difícil estar entre os 16 do que ganhar um ouro em algum concurso de vinhos”, afirmou ao Blog Cepas & Cifras. O empresário diz estar realizado com o resultado, especialmente por se tratar de uma vinícola pequena, com uma trajetória relativamente recente, que ainda aprende com regiões de tradição vitivinícola mais longa, como o Sul do Brasil. Neste ano, o tinto da Villa Triacca alcançou mediana de seleção de 93 pontos.

A presença consecutiva da vinícola também chama a atenção para a diversidade da produção do Planalto Central. Além de Syrah, Marselan e Cabernet Franc, a Villa Triacca cultiva variedades tintas como Tempranillo, Nebbiolo, Sangiovese, Grenache e Malbec, além de brancas como Sauvignon Blanc, Chardonnay, Vermentino e Assyrtiko. O resultado é um projeto que busca adaptar diferentes castas às condições locais e ampliar o repertório de vinhos produzidos fora dos polos tradicionais do país.

Doze variedades compõem o retrato da safra

A diversidade regional também se manifesta nas uvas utilizadas. As 16 amostras reúnem Chardonnay, Pinot Noir, Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Moscato Giallo, Cabernet Sauvignon, Marselan, Rebo, Teroldego, Syrah, Cabernet Franc e Tannat. Algumas variedades aparecem em vinhos elaborados com uma única uva; outras integram cortes, enquanto Chardonnay e Pinot Noir compõem os dois vinhos-base para espumantes selecionados.

Há espaço tanto para castas conhecidas do consumidor brasileiro quanto para variedades menos difundidas, como Rebo e Teroldego. A relação inclui ainda um rosé de Cabernet Sauvignon, dois tintos jovens e diferentes estilos de brancos e tintos. Mais do que estabelecer uma hierarquia entre produtores, o conjunto oferece um panorama da diversidade enológica encontrada na safra.

A seleção é feita por meio de degustação às cegas, conduzida por enólogos. Nesta edição, 109 profissionais participaram do processo, que avaliou as 558 amostras inscritas por 83 vinícolas. O objetivo da Avaliação Nacional de Vinhos não é eleger um único campeão, mas identificar os 30% mais representativos e, entre eles, as amostras que serão apresentadas ao público. A metodologia procura oferecer um retrato técnico da safra, considerando seus diferentes perfis e características.

As 16 amostras da 34ª ANV – Safra 2026

  1. Casa Valduga Vinhos Finos – Bento Gonçalves (RS)
    Vinho Base Espumante – Chardonnay e Pinot Noir

  2. Vinícola Geisse – Pinto Bandeira (RS)
    Vinho Base Espumante – Chardonnay e Pinot Noir

  3. Cooperativa Vinícola São João – Farroupilha (RS)
    Vinho Branco Não Aromático – Chenin Blanc

  4. Nova Aliança Vinícola Cooperativa – Flores da Cunha (RS)
    Vinho Branco Não Aromático – Chardonnay

  5. Quinta da Neve – Vinhos Finos – São Joaquim (SC)
    Vinho Branco Aromático – Sauvignon Blanc

  6. Vinícola Giacomin – Flores da Cunha (RS)
    Vinho Branco Aromático – Moscato Giallo

  7. Cerro de Pedra – Pinheiro Machado (RS)
    Vinho Rosé – Cabernet Sauvignon

  8. Cooperativa Vinícola Aurora – Bento Gonçalves (RS)
    Vinho Tinto Jovem – Pinot Noir

  9. Maison Forestier Vinhos e Espumantes – Garibaldi (RS)
    Vinho Tinto Jovem – Cabernet Sauvignon

  10. Vinícola Mioranza – Flores da Cunha (RS)
    Vinho Tinto – Marselan

  11. Vinícola Campestre – Campestre da Serra (RS)
    Vinho Tinto – Rebo

  12. Vinícola Don Guerino – Alto Feliz (RS)
    Vinho Tinto – Teroldego

  13. Vinícola Miolo – Bento Gonçalves (RS)
    Vinho Tinto – Cabernet Sauvignon

  14. Villa Triacca Hotel Vinícola & Spa – Brasília (DF)
    Vinho Tinto – Syrah, Marselan e Cabernet Franc

  15. Batalha Comercial de Vinhos – Candiota (RS)
    Vinho Tinto – Tannat

  16. Vinhos Larentis – Bento Gonçalves (RS)
    Vinho Tinto – Tannat