Seven – Parte 3: A Preguiça

Um exemplo emblemático de empresa que se deixou levar pela apatia é o da Kodak

Por Letícia Polydoro

Um exemplo emblemático de empresa que se deixou levar pela apatia é o da Kodak

Quem assistiu ao filme Seven sabe que o pecado da Preguiça foi a inspiração para o terceiro crime investigado por Morgan Freeman e Brad Pitt, e também aquele que confirmou a suspeita de que estavam lidando com um serial killer. Como estou seguindo à risca os passos do assassino, escrevo agora sobre como a Preguiça pode também ser um pecado capital para os negócios.

A Preguiça (Dicionário de sinônimos: desânimo, apatia, sono, inatividade, inércia, marasmo, moleza, prostração)

Preguiça, quem nunca? Que atire a primeira pedra aquele que jamais desanimou frente aos desafios diários da vida corporativa. Pressão por resultados, sobressair-se em relação à concorrência, estar constantemente se reinventando em um mercado cada vez mais imprevisível são fatores que impactam a todos nós. A sigla VUCA, em inglês – ou em português VICA – que tem sido muito disseminada nos dias de hoje, representa bem o nosso cenário atual: Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade.

O momento pede reflexão, mas com o cuidado de não confundi-la com apatia. Neste ambiente saem-se melhor aqueles com perfil multidisciplinar, inquietos e inovadores. Não é a toa que atualmente se fala tanto em economia criativa, ressignificação e inclusão. Só a partir da multidisciplinaridade conseguiremos nos desacomodar e visualizar a pluralidade do novo cenário para então nos prepararmos para ele.

Seven – Parte 1: A Gula

Seven – Parte 2: A Avareza

Um exemplo emblemático de empresa que se deixou levar pela apatia é o da Kodak. Para aqueles que, como eu, são da geração pré-Instagram, não deve ser difícil lembrar da época em que precisávamos recorrer à compra de cartuchos físicos de filmes para conseguir as nossas tão desejadas fotos. As fotografias daquele tempo acabavam tendo um maior significado pela complexidade de todo o processo até obtê-las. Foi nesta época que a Kodak era líder absoluta. Detinha 90% das vendas de filmes e 85% das vendas de câmeras nos Estados Unidos, seu local de origem e principal mercado. Nascida em 1880, a empresa sobreviveu a duas guerras mundiais, à forte crise internacional decorrente da quebra da Bolsa de Nova York e às transformações comportamentais da geração Woodstock. No entanto, não sobreviveu à Revolução Digital. Sua entrada na nova era foi extremamente lenta, não acompanhou a velocidade das mudanças. Em 1996, quando diversas marcas já estavam entrando com força no mercado norte-americano de câmeras digitais, a Kodak até chegou a lançar um modelo próprio, mas ainda sem uma estratégia comercial dirigida. A inércia fez com que a empresa seguisse apostando no segmento tradicional até ser tarde demais e tornou-se praticamente irrelevante no novo cenário. Em 2012 a companhia entrou com pedido de falência e atualmente está tentando se reinventar sustentada pela força da marca. 

Mas houve um episódio curioso na história da Kodak que nos dá o que pensar: no final dos anos 1980, dois engenheiros da própria empresa criaram uma primeira máquina digital comercializável. Apresentaram a invenção para os seus chefes, que impediram o lançamento por acreditarem que seria muito ruim para os negócios. Ou seja, a Kodak teve a oportunidade de liderar esse novo mercado, mas a alta gestão estava tão imersa em seu próprio modelo que não enxergou a transformação que batia a sua porta e não fez nenhum movimento para mudar. Vence a inércia, perde a empresa. A lição com isso é que a solução pode já estar dentro de casa, o que nos falta é tomarmos a iniciativa, dar tração à mudança, sair do marasmo e ter a atitude de transformar.

Podemos especular sobre os possíveis motivos da apatia corporativa. Ninguém deseja tornar-se irrelevante. Mas como no conto do sapo que está sendo aquecido lentamente na panela e não percebe que está sendo cozinhado, agimos assim também nos negócios. Percebemos que mudanças estão ocorrendo, mas optamos por agir como meros expectadores, e seguir fazendo mais do mesmo, sem perceber que estamos gradativamente perdendo clientes. A Kodak é um exemplo notório, mas muitas empresas passaram e ainda passam por isso.

A preguiça é sorrateira, silenciosa, lenta. Vai chegando de mansinho até se instaurar forte, pesada, imóvel. Ajuste o seu cronômetro numa velocidade em que consiga ter tempo suficiente para refletir sobre o seu negócio, mas que não seja lento demais a ponto de perder a relevância para o mercado. Aliás, preguiça é o que o assassino do filme Seven não tem. Enquanto estamos refletindo, ele já está preparando seu próximo crime: prepare-se para, em breve, assistir ao pecado da Luxúria.


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