Um novo Vale dos Vinhedos no Paraná?

Revitis quer competir em pé de igualdade com os vinhos gaúchos

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Revitis quer competir em pé de igualdade com os vinhos gaúchos

O governador Carlos Massa Ratinho Junior lançou nesta terça-feira (26), no Palácio Iguaçu, o programa Revitis, destinado a estimular a produção de uvas no Paraná. Iniciativa inédita no Estado, o programa está apoiado em quatro eixos: incentivo para a produção, reorganização da comercialização, desenvolvimento do turismo e apoio à agroindústria. O programa é uma parceria entre o Governo do Estado (por meio da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento), suas autarquias, as universidades e a iniciativa privada, e prevê a autossuficiência da cadeia como resposta à falta de parreiras para atender a demanda da indústria local. O programa se soma à retirada do vinho do regime de substituição tributária no começo de novembro, o que já apresenta redução do preço de venda para o consumidor final.

O governador afirmou que o estímulo à produção de uva com qualidade vai gerar emprego e renda, principalmente diante de um contexto de 85% de propriedades ainda dedicadas à agricultura mais enxuta no Estado. “A ideia é fortalecer a produção de uva, suco e vinho. O Paraná foi um grande produtor no passado e ao longo do tempo diminuímos a produção. Queremos retomar essa cadeia com muita força e com planejamento integrado. Queremos disputar em grau de igualdade com o Rio Grande do Sul e consolidar nossos vinhos em todo o mundo”, afirmou Ratinho Junior. 

O Revitis vai integrar os atores da cadeia produtiva da uva, capacitar produtores e reestruturar a rede estadual da pesquisa para a viticultura, além da promover o turismo relacionado à cultura da uva e derivados. Haverá linhas de financiamento e acompanhamento técnico. A viticultura e a vitivinicultura (produção para vinhos) têm potencial de aumentar o leque de alternativas para a geração de renda nas pequenas propriedades rurais, porque conseguem gerar mais oportunidades de emprego do que culturas extensivas. No Paraná, falta uva para atender o aumento da demanda para a indústria instalada, cuja capacidade de processamento cresce todos os anos. Os produtores estaduais importam mais de 90% das uvas de mesa que utiliza para fazer sucos e vinhos coloniais e cerca de 84% das uvas para vinhos finos.

O Revitis será gerido em parceria pela Secretaria da Agricultura e Abastecimento, Emater, Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Associação de Vitivinicultores do Paraná (Vinopar), Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Assembleia Legislativa e secretarias da Fazenda, do Planejamento e Projetos Estruturantes e do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo. Ele prevê a criação de uma câmara técnica setorial de viticultura, que será responsável por deliberar sobre as políticas públicas de integração, agroindústria, turismo e relação com os produtores, e tem como um dos principais objetivos ampliar a participação de viticultores iniciantes no processo produtivo. “Temos conhecimento, clima, solo e produtores. Por que não espelhar o Chile, a Argentina, a França, a Itália, a Espanha e o Vale dos Vinhedos gaúcho? É um programa que tem a ousadia de fortalecer uma cadeia inteira, gerando oportunidades no campo e na indústria”, disse Norberto Ortigara, secretário da Agricultura e do Abastecimento.

A Associação de Vitivinicultores do Paraná (Vinopar) estima que a manipulação industrial tem potencial de crescimento de 57% para a fabricação de sucos e vinhos coloniais e de 342% para vinhos finos em cinco anos. “Vamos resgatar a viticultura estadual. Temos total condição de voltar a fazer do Paraná um grande produtor de uvas. O Rio Grande do Sul emprega 20 mil famílias, com média de dois hectares cada. Se a gente alcançar esse patamar no Paraná, os produtores terão renda extra de R$ 60 mil ao ano. Isso ajudará os agricultores a ficarem no campo”, afirmou Giorgeo Zanlorenzi, presidente da Vinopar. Esse planejamento abrange ampliar a área plantada para mais de 6 mil hectares, alcançando, pelo menos, patamar de 2010 da produção. Atualmente são 3.666 hectares de área plantada – 2.049 hectares com uva de mesa e 1.617 hectares com uva rústica, para fabricação de sucos e vinhos. O Estado perdeu dez mil postos de trabalho nos últimos dez anos.

Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, o cultivo de uva para fins comerciais está presente em 138 municípios paranaenses, com volume de produção de 65 mil toneladas da fruta, entre uva de mesa e uva rústica. Em 2018, o faturamento bruto dos produtores girou em torno de R$ 254 milhões. A fruticultura como um todo representa 2% do faturamento rural do Paraná (R$ 1,7 bilhão por ano).

O Revitis tem como embasamento técnico estudos recentes da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves (RS), que incluíram o Paraná como local de clima indicado para a viticultura. A partir da classificação climática, as características dos planaltos de Curitiba e de Guarapuava foram considerados semelhantes aos da Serra Gaúcha e da Serra do Sudeste, também no Rio Grande do Sul, onde a produção já se consolidou e obteve reconhecimento internacional. Essas regiões no Paraná com características de clima úmido, temperado quente e com noites amenas guardam semelhanças com regiões produtoras do Uruguai, Espanha (Galícia) e Itália (regiões de Modena e do Vêneto).

Uma das ideias é estimular a produção de uvas em áreas de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e que sejam declivosas. São áreas da região Centro-Sul de baixa exploração e que podem se tornar rentáveis e produtivas com pequenas áreas plantadas. Outras regiões no Estado como o Sudoeste, o Norte e o Oeste também apresentam características climáticas ideais para produção de uva de mesa, suco e vinho - Marialva, responsável por mais de 40% da produção estadual, é uma das cidades produtoras mais conhecidas.

O Revitis ainda vai ajudar a impulsionar as atividades de diversas vinícolas já instaladas em Araucária, São José dos Pinhais, Campo Largo, Colombo e Piraquara. O cultivo de uva e produção de vinho estão presentes no Estado desde o período da colonização por imigrantes europeus italianos e alemães, no início do século 20. A atividade se concentrou na Região Metropolitana de Curitiba até a década de1960, com grandes vinícolas economicamente competitivas, mas houve queda da produção a partir dos anos 1970. Entre os motivos desse hiato produtivo estão pragas que causaram quedas acentuadas de produtividade e, em muitos casos, perdas totais nos parreirais; e valorização do mercado imobiliário no entorno da Capital, o que deixou os terrenos muito caros para viticultura. Também houve o fechamento de uma unidade de pesquisa, deixando o setor carente de tecnologia. Com o apoio da assistência técnica rural do setor público e do desenvolvimento da pesquisa no Estado, novos parreirais destinados a uva de mesa, suco e vinho foram instalados em outras regiões do Paraná nas décadas de 1970, 1980 e 1990.


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Rogério Carnasciali

Implantamos aqui na serra de Apucarana a Vinícola e Jardins Casa Carnasciali. Plantamos em 2016 4 mil mudas de Chardonnay, 3200 de Pinot Noir e 2 mil de Shiraz. Somos os primeiros que essas variedades em todo o norte do Paraná. Abrimos há duas semanas para visitação aos sábados e domingos. Ser pioneiro em um novo terroir não está sendo uma situação fácil. Não temos apoio dos bancos justamente porque somos pioneiros. Nem o BRDE aceitou financiar. Teremos nossa primeira colheita em escala em 2020.

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