John Le Carré

Le Carré se aproxima da modéstia com que todos deveríamos tentar nos despedir da vida

Por Fernando Dourado Filho*

David Cornwell, ou John Le Carré, o aclamado autor de O espião que veio do frio, foi excelente companheiro de travessia por sobre o Atlântico em minha viagem para a África do Sul na última sexta-feira. Seu livro biográfico O túnel de pombos - Histórias de minha vida é um primor de escrita enxuta e contida, nem por isso menos divertida. A invejar, de cara, um quase nonagenário que há 60 anos se dedica estritamente à literatura, depois de seus começos pontilhados por escolas de elite (Eton), o aprendizado do alemão em Berna, Suíça, e o ingresso na espionagem britânica, primeiro no MI5 e depois no MI6. 

O que mais fascina (e intriga) na biografia é que a parte reservada à família, mais especificamente ao pai, só aparece nos capítulos finais do livro. É como se a alma delituosa do genitor terrível – muitas vezes encarcerado – pudesse desconcentrá-lo do fio condutor que é, inegavelmente, sua obra. Livro após livro, ele fala das pessoas que o inspiraram, das tantas que o ajudaram nas pesquisas de campo em todos os continentes, das que levaram as histórias ao cinema – tanto diretores quanto artistas – em momento algum abdicando da compostura, da sobriedade e da elegância. 

Fiel ao feitio de se colocar sempre que possível sob uma luz jocosa, quase ridícula (nada de tão britânico), ele só não abre mão de manter indevassados seus segredos de espião, por entender que eles integram um juramento e um credo sem preço. Mas falará bastante de Blake, Philby e de Graham Greene. Verdadeira aula de como lidar com as frustrações da vida de escritor, mesmo tendo ele conhecido o sucesso muito cedo, ao humanizar suas ansiedades, Le Carré se aproxima da modéstia com que todos deveríamos tentar nos despedir da vida. Pelo bem da humanidade e da própria consciência na partida .  

Recomendo com entusiasmo, especialmente a quem tem longas horas de voo a enfrentar e precisa afinar sua sensibilidade e percepção interpessoal – a chave do sucesso de qualquer viagem. Afinal, quem pode ser melhor professor de como perceber o outro do que um espião de quatro costados? 


*Da Cidade do Cabo (África do Sul)

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