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Startup paranaense W3lcome prova que MVP tem de ser curto

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Nada de pensar e repensar o negócio. Aliás, um plano que vinha sendo estruturado, pauta de reunião em uma empresa no Vale do Silício, acabou, mais tarde, deixado para trás em razão de um insight em pleno polo mundial de tecnologia. Nasceu em cinco minutos a ideia da W3lcome, uma startup de automação para gerenciamento de visitas, sediada em Maringá (PR), que superou meses e meses de prejuízo para hoje calcular a taxa crescimento.

 O CEO da W3lcome, Gabriel Gratival, possuía uma consultoria para aumento de produtividade de empresas na Suíça, onde tinha um sócio, Lucas Cotta. Porém, o desejo de estar próximo da família o fez retornar ao Brasil. Já com a ideia de trabalhar com tecnologia, ele e Cotta pensaram em criar uma pulseira que funcionasse como um botão do pânico. A ida ao Vale do Silício havia sido realizada para tratar do design desse produto. No entanto, a ideia foi descartada ao final da viagem para dar lugar à W3lcome. “Há uma política que isola o Brasil do resto do mundo por vários fatores, o que ameaça empresas de entrar. A contrapartida é que a gente tem muita oportunidade aqui. Tem muita coisa lá fora que basta entender, adaptar e fazer acontecer. Foi o que fizemos”, confidencia Gratival.

 Com um mercado nacional de 86 mil grandes empresas como potenciais clientes, a W3lcome é inspirada em um sistema norte-americano – hoje concorrente – utilizado para o check-in no encontro no Vale do Silício. “A gente viu as notificações da chegada e saída no celular do nosso host. A empresa não tinha recepcionista, que lá custa cerca de US$ 5 mil por mês”, relembra. O CEO explica que a W3lcome foi criada para resolver o problema das recepções, que por vezes são “departamentos” ineficientes, pois não conseguem dar conta do fluxo ou passam horas sem alguma atividade específica para ser executada. A solução revoluciona a dinâmica do setor e elimina as desagradáveis filas. “Ninguém gosta de chegar, entregar documento, esperar a recepção avisar e ficar aguardando. A possibilidade de o visitante fazer o check-in antecipado também faz a ida ser mais dinâmica e com uma experiência mais tecnológica, o que transforma a percepção do visitante”, evidencia o empreendedor. 

Criada há dois anos, a startup passou 11 meses na fase do MVP, sigla para Minimum Viable Product ou Produto Minimamente Viável, em português [em empreendedorismo, principalmente no contexto de startups, um produto viável mínimo é a versão mais simples de um produto que pode ser lançada com uma quantidade mínima de esforço e desenvolvimento]. Isso, na visão de Gratival, foi o maior erro da equipe. “No final, deu certo, mas deveríamos ter lançado algo muito antes para resolver a dor do cliente”, comenta o CEO. “A gente tinha R$ 8 mil de dívida todo mês e faturava menos de R$ 2 mil. Queimamos dinheiro na fase do desenvolvimento e nos primeiros meses de venda. Chegamos a montar uma contagem regressiva para a nossa falência”, revela.  A guinada veio com um ajuste na estratégia de comercialização, que passou a ser entendida dentro de um processo de decisão. Foi preciso mapear e abordar de forma diferente os setores das empresas que poderiam se tornar clientes, como as áreas de marketing, de compras e diretoria.

 Hoje são 28 grandes clientes, entre eles o SBT, Cabify, Movile (dona do iFood), Alpargatas (grupo dono das Havaianas), Olist, Sancor Seguros e Sicoob. Em setembro, a startup superou os 50 mil cadastros de visitantes nas recepções utilizando o sistema da W3lcome, com direito a contagem progressiva e comemoração com o time. Se um dia a luta foi para não desistir da ideia, hoje o foco está em ser referência na América Latina. O faturamento de R$ 40 mil ao mês é considerável, mas o objetivo é manter o crescimento da startup entre 5% a 10% por semana, o que significa conquistar de um a dois clientes no período. “A meta ambiciosa pode nos levar a crescer 20 vezes no ano, num planejamento conservador”, calcula Gratival. 

O crescimento da startup veio com a participação em um programa da Evoa, aceleradora maringaense de startups onde a W3lcome está instalada. “A Evoa ajudou a conquistar os primeiros clientes. Trabalhamos com informações confidenciais, os dados das pessoas que acessam as empresas. A gente não tinha técnica para vender essa solução”, conta Gratival. O empreendedor destaca que o Sebrae, incentivador da Evoa, também esteve presente nessa fase. Além disso, ofereceu participação no programa Capital Empreendedor, onde é oferecida mentoria cognitiva e técnica para negociação, além de preciosas dicas para apresentar dados da companhia para atrair investidores. O programa está em andamento e a expectativa é apresentar a ideia para investidores no final.

Segundo o consultor do Sebrae/PR, Nickolas Kretzmann, o caso da W3lcome mostra como entender a lógica do mundo das startups faz diferença. “Saíram do zero para R$ 40 mil de faturamento, em razão da ideia de um negócio mais agressivo”, comenta. Ele acrescenta que para entrar nesse mercado é preciso ter perfil arrojado e gostar de correr riscos calculados. “É isso que faz com que em 11 meses uma empresa comece do zero, para em outros 11 alcançar grandes clientes e pensar em ser referência na América Latina, o que pode acontecer daqui a 11 meses”, analisa. Um investimento de até R$ 40 mil também está à vista. É que a startup foi selecionada entre as 100 ideias, de quase 2 mil inscritas, para participar do Sinapse da Inovação. O programa, que apoia o empreendedorismo inovador, é executado pelo governo paranaense, por meio da Celepar e Fundação Araucária, com operação da Fundação Certi e apoio do Sebrae/PR e Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).



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