As apostas dos bancos para driblar o juro baixo...

...e ainda depender menos do BNDES na busca de recursos

Por Karine Menoncin

karine.menoncin@amanha.com.br

Algumas metas desafiam tanto os limites de uma economia em recessão como os de um mercado de capitais acostumado a ser coadjuvante do banco de fomento. Com a redução em geral do repasse de verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), as instituições financeiras vêm buscando alternativas de fontes de captação. Segundo levantamento dos técnicos do próprio BNDES, com base em dados do Banco Central, a instituição ainda responde por metade do crédito de longo prazo concedido a empresas no país.

É o caso do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), que busca outras fontes de financiamento para o repasse. “Quando cheguei no BRDE, dependíamos 99,5% do BNDES. Era muito arriscado. Hoje, a dependência caiu para 69%”, explica Luiz Corrêa Noronha (na foto, o primeiro da esquerda para a direita), vice-presidente da agência de fomento. A participação do sistema BNDES como fonte de recursos repassados para o BRDE já vem caindo, tendo reduzido de 94%, em 2017, para 72%, no ano passado. Apesar da redução da participação do BNDES entre as fontes de recursos, o BRDE segue sendo um dos principais repassadores da instituição nacional. A força-tarefa é criar novas possibilidades de linhas de crédito através de outros fundings (fontes de captação de recursos). Em 2018, foram ampliadas as operações com recursos do FGTS e da Finep e foram captados recursos de dois agentes internacionais, a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e o Banco Europeu de Investimento (BEI). O BRDE também se tornou agente dos fundos Fungetur e Funcafé.

Nessas bases também atua o Badesul, a agência de fomento do estado gaúcho. Foi no Fungetur, mecanismo de crédito para o turismo como negócio e estratégia para o desenvolvimento social e econômico, que o banco buscou amparo para manter os repasses. “Fomos os primeiros a contratar esse fundo. Temos trabalho forte com outros fundings, além de usar muito capital próprio”, detalha Jeanette Lontra (a quarta da esquerda para a direita, ao lado de Simone Leite, presidente da Federasul), presidente do Badesul. Na última década, o Badesul liberou mais de R$ 2,8 bilhões em projetos de implantação, modernização e ampliação de empresas gaúchas. Já no agronegócio, foram mais de R$ 2,4 bilhões financiados para irrigação, armazenagem e infraestrutura rural. Outros R$ 559 milhões foram repassados para melhorias em infraestrutura e promoção do desenvolvimento regional.

Já a visão de Claudio Coutinho (na foto, o segundo da esquerda para a direita), presidente do Banrisul, é mais otimista em relação ao fundo. “Não acredito que esteja reduzindo efetivamente, a fonte BNDES continuará lá, mas [o acesso] será mais competitivo”, acredita. Com juro menor, Banrisul planeja emprestar mais e conta com o BNDES para "grandes projetos".

Os sinais de retomada financeira animam a cooperativa de crédito Sicredi, que tem visto um aumento da procura por financiamentos especialmente nas cidades do interior. “Nossa carteira de crédito está crescendo mais de 30%. Em relação ao BNDES, alguns programas ainda estão enrolados, mas estamos nos acostumando. Vai continuar sendo uma importante agência de fomento, mas precisamos diversificar”, justifica João Francisco Tavares (na foto, o quinto da esquerda para a direita), diretor-executivo do Sicredi. Entre as fontes de captação, está o fundo que pertence ao BID, onde a cooperativa conseguiu crédito para repassar aos clientes que desejam investir em painéis solares. 

A queda da Selic
Em tempos de juros historicamente baixos, a renda fixa já não é mais tão atrativa para os investidores. Tomar mais risco e migrar parte dos investimentos para a renda variável é um caminho natural e irreversível. Essa tendência já se concretizou em países mais desenvolvidos, por exemplo, nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde investidores alocam 22% e 50% dos seus portfólios de renda variável, respectivamente, em ações no exterior. No Brasil esse volume de operações cresceu 64% nos últimos 3 anos, de acordo com o Banco Central. 

No outro lado da moeda, os bancos estão reavaliando suas carteiras e os produtos ofertados. “Cada queda da Selic acaba sendo benéfica para nós, pois temos uma carteira pré-fixada. É possível captar mais barato e emprestar mais barato para os clientes”, explica Marciano Testa (na foto, o sexto da esquerda para a direita), CEO do Agibank. “Um banco que tinha como benchmarking um ROI [retorno do investimento] de 20%, tem de rever seus modelos. Fica mais difícil operar com um ROI desses. Quem sabe devêssemos adotar um modelo americano de alavancagem. Nenhum banco brasileiro está preparado para isso”, completa. A redução da taxa também é vista de forma positiva pelo Banrisul. “Isso permite aumentar o volume de empréstimos, pois reduz o custo do financiamento e permite diminuir ainda mais a inadimplência”, afirmou Coutinho. 

Para a cooperativa de crédito, a Selic baixa compensa pelo volume de operações. “Uma pena que não se está usando essa taxa baixa para crescer. Se a redução fosse acompanhada de uma retomada econômica, seria ótimo”, acredita João Francisco Tavares, diretor-executivo do Sicredi. Já o Badesul, os impactos da menor taxa histórica da Selic pesam no bolso. “Somos uma agência de fomento, então essa redução da taxa, que serve de referência para empréstimos e financiamentos, afeta [o desempenho], até porque trabalhamos com financiamos para daqui 10 anos”, explica Jeanette Lontra, presidente do Badesul. 


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