Promessa de vida

Agora começo a me transportar para a Europa. E sinto a alma sôfrega pelas delícias que só as folhas mortas trazem

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Parque europeu coberto por folhas secas

Falta apenas um mês para que a Europa se despeça em definitivo do verão de 2019. Embora essa linha demarcatória do calendário seja só simbólica, e os dias estivais possam perfeitamente se prolongar até outubro, alguma coisa de fundamental muda ao norte do Equador à medida que agosto vai chegando ao fim. Desde já, as primeiras mensagens dão conta do novo estado de espirito que invade as pessoas. Por um lado, são as crianças que se preparam a voltar à escola. Por outro, os campeonatos de futebol ganham ritmo e, já na próxima semana, se anunciarão as grandes temporadas artísticas que assinalam o outono-inverno.

A depender do lugar, setembro trará as primeiras mudanças na folhagem. Na Escandinávia, florestas inteiras apresentarão tons de ocre, amarelo, alaranjado e ferrugem na copa das árvores. Nas montanhas, é quase inevitável que outubro traga as primeiras quedas de neve. Já novembro, pode ser tremendamente frio, e aí ficam para trás as esperanças de que o inverno teria se esquecido de comparecer. O que não quer dizer que possamos ter nesses tempos de meteorologia malucos um janeiro-fevereiro bastante suportável, justamente no bimestre em que o frio batia o auge, quando a natureza não nos pregava tantas peças.  

Evoco tudo isso para lembrar que na minha juventude europeia, tínhamos os chamados amores de verão. Eles eram uma espécie de momento de desvario, e se caracterizavam pela intensidade dos sentimentos, pela sensualidade aflorada nas peles bronzeadas. Quando setembro chegava, e a relação se desmanchava, havia não raro uma espécie de tomada de consciência de que tudo fora fugaz, e de que a vida pedia um pouco mais de seriedade doravante. Então retomava-se um namoro antigo, talvez o último que se desfizera na primavera. Ela também amadurecera, e tudo se confundia com o ardor de lareiras de madeira fresca.

Em algumas cidades, a retomada é inconfundível. A chamada "rentrée" parisiense é revestida de trepidações que contrastam fortemente com a modorra de agosto, época em que a cidade ficava fortemente desfigurada, quase irreconhecível. A plaquinha de "fechado para as férias" – "cet établissemnet est fermé pour les vacances" – muitas vezes ficava afixada até o fim da primeira semana de setembro. Hoje já não é assim tão radical. Certo é que nessa época do ano começo a me transportar para a Europa. E sinto a alma sôfrega pelas delícias que só as folhas mortas trazem. Para mim, elas são "promessas de vida em meu coração". 

A conferir. 


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