O violinista no telhado

Mergulhe e perpetue as mensagens desse momento memorável da história do entretenimento

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Cena de O violinista: o milagre dos milagres

Todo mundo já viveu momentos de encantamento, não raro motivados pela leitura de um livro ("O deserto dos tártaros", de Dino Buzzatti, no meu caso), por um acontecimento impactante (a chegada do homem à Lua é outro bom exemplo) ou por um filme ("A noviça rebelde", a que assisti seis vezes). Na última categoria, tenho mais um a acrescentar. Trata-se de "O violinista no telhado", levado à grande tela depois do imenso sucesso que o musical teve na Broadway, onde estreou em meados da década de 1960. 

Lembro quando meu pai nos levou ao extinto cinema Boa Vista, no Recife, para uma sessão vespertina do filme, então estrelado por Chaim Topol, no papel do leiteiro Teyve, personagem síntese do ucraniano Scholom Aleichem. Teyve é um feliz morador de Anatevka onde, apesar das imensas dificuldades materiais, vive em enlevo espiritual com Golda, a esposa, e as cinco filhas – embalado pela paz de espírito das almas simples e virtuosas, dessas que abrem um canal direto para conversar com Deus. 

Do filme, tenho certeza, deve ter nascido boa parte de minha curiosidade de um dia singrar por aquela parte do mundo à procura de ecos do que se chama "Yiddishland", ou seja, a civilização judaica que floresceu na Europa Central e Oriental, frontalmente ceifada pelo Nazismo nos anos 1930-1940. Mesmo diante da visão às vezes decepcionante de cidades na Ucrânia, Rússia e Polônia, já desnudas de vestígios de seu passado judaico, os acordes de um certo violino deram fundo musical às minhas andanças.  

Foi, portanto, com imensa alegria que assisti ao documentário "O violinista: o milagre dos milagres", dirigido por Max Lewkowicz, no quadro do excelente 23º Festival de Cinema Judaico Hebraica, que acontece até o dia 14 de agosto no clube de São Paulo, aberto a não-sócios. Além da alegria de reatar com o filme e de poder ouvir o que têm a dizer seus realizadores, algumas lições sobressaíram com grande força, misturando maravilhamento com preciosas conclusões sobre como se constrói uma obra que jamais caducará. 

Como foge ao espírito deste artigo antecipar tudo o que desejo que o leitor veja no cinema, gostaria de elencar dois fatores que são vetores poderosos quando vistos isoladamente, e muito transformadores quando combinados com talento, profissionalismo e perfeccionismo. Basta dizer que desde a primeira encenação, nunca mais "O violonista..." deixou de ser encenado dia após dia em algum lugar do mundo, exsudando universalismo e emoção junto a plateias tão surpreendentes quanto as da Tailândia e Japão.

a) Além da imensa beleza das coreografias e das canções, é quase imediata a empatia que a situação provoca. Por conta de acertos enredados e tramados em Moscou, Teyve e família se juntam à comunidade de Anatevka num melancólico exílio, levando o leiteiro a interpelar o Criador sobre seus desígnios oblíquos. Singelamente, ele diz "sabemos que somos o povo eleito. Mas não será que dá para nos esquecer um pouco de vez em quando?" Penalizado com a sina de colocar os pertences na carroça e mudar de vida, Teyve só queria paz e, se fosse o caso, mais do mesmo. Em tempos de tantos refugiados (hoje e sempre), como ignorar o drama candente desta sina?      

b) A obra captou na sua mensagem o Zeitgeist da revolução dos direitos civis americanos que prosperava nos anos 1960. Duas das meninas de Teyve, Tzeitel e Hodel, recusam os arranjos ordenados pelo pai com a casamenteira Yente. A dilaceração fatal acontece quando Chava decide casar-se fora da comunidade, o que afronta a tradição – o mote contínuo do leiteiro e dos milhões de judeus que viviam da consagração do shabat e da observância aos preceitos sagrados. "Matar" Chava em vida, esquecê-la, é comum em muitas culturas, e integra a essência do choque de gerações.

No filme, emociona ver os ensaios com o primeiro Teyve, o da Broadway, na figura do corpulento Zero Mostel, que seria preterido pelo israelense Topol quando da rodagem do filme, na busca de um arquétipo de judeu mais vigoroso, condizente com a Israel pós-1967. Nos trepidantes bastidores da saga, entrecruzam-se o Macartismo, o feminismo e a incrível cadeia de excelência que está por trás de todo grande sucesso nos Estados Unidos, qual seja, aperfeiçoar implacavelmente o que vai bem e cortar sem piedade o que não vinga. 

Mergulhe nessa história, divulgue-a para seus filhos, perpetuem as mensagens desse momento memorável da história do entretenimento. Eis uma história que emociona indistintamente todos os públicos. 


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