O que o Projeto Barcelona 22@ nos ensina

Iniciativa envolveu universidades, empresas, governo e sociedade

Por Jorge Audy*

Barcelona Activa

Barcelona certamente é o mais destacado exemplo do mundo ibérico e latino-americano de transformação de uma cidade, de um polo regional típico da Sociedade Industrial (século 19) para um ecossistema de inovação global característico da Sociedade do Conhecimento (século 21). Por esta razão, Barcelona é frequentemente usada como exemplo de uma bem-sucedida inserção de uma região no cenário de competição global, transformando a cidade em um lugar desejável de se viver e trabalhar por sua qualidade de vida e sua capacidade de renovar e adaptar sua economia local aos novos requisitos da economia global.

Esse processo de mudança da cidade, em todas suas esferas, públicas e privadas, teve como referência principal, na área de inovação e empreendedorismo, o Pacto pela Inovação e o Projeto 22@, envolvendo uma articulação efetiva entre os atores da quádrupla hélice, universidades, empresas, governo e sociedade.

As origens do processo de transformação da cidade situam-se nos Jogos Olímpicos de 1992, quando Barcelona aprofundou uma política de regeneração de áreas estrategicamente localizadas no espaço urbano, criando as condições de construção sistemática de uma imagem internacionalmente reconhecida como de uma cidade criativa e inovadora. Naquele contexto, emerge o Projeto 22@, como fruto da combinação de uma desejada regeneração de espaços urbanos deteriorados e um ambicioso projeto de revitalização urbana orientado para uma maior competitividade da cidade e região, gerando a atração de talentos internacionais, revertendo o fluxo de saída de cérebros para outras regiões da Espanha e exterior.

O Projeto 22@ surge como projeto principal e estratégico de um projeto maior da cidade de Barcelona, chamado Barcelona, Cidade do Conhecimento.

Desde sua concepção, o Projeto 22@ envolve todos os atores relevantes da nova economia do conhecimento, universidades, empresas, governo e sociedade, sendo liderado desde sua concepção pela Municipalidade de Barcelona. Ainda no início dos anos 1990, sob a liderança da Municipalidade, foram elaborados Planos Estratégicos que norteiam as ações e os desafios enfrentados pela cidade, envolvendo todos os atores relevantes no seu processo de desenvolvimento. Estes Planos Estratégicos são desenvolvidos por organizações transversais com participação de diversos segmentos empresariais e sociais. Neste ambiente criam-se as condições para um Pacto pela Inovação, modelo de transformação da Cidade de Barcelona que termina sendo usado como referência em diversas outras regiões do mundo a partir dos anos 2000.

Desde o primeiro Plano Estratégico no início dos anos 1990, diversos outros se sucederam, tendo como filosofia a busca incessante de consensos viáveis entre todos os atores envolvidos, envolvendo cooperação entre as áreas públicas e privadas. Em linhas gerais, esses Ciclos de Planejamento e o Pacto pela Inovação visam a orientar o desenvolvimento da cidade em torno de estratégias compartilhadas e desafios comuns a todos os atores envolvidos.

Ao longo do tempo, uma ambiciosa visão de futuro da cidade como protagonista do desenvolvimento regional e global emerge, novos projetos são desenvolvidos, tendo o Projeto 22@ como seu exemplo mais arrojado e referência para a renovação da cidade, definindo claramente áreas prioritárias de desenvolvimento, estímulo ao empreendedorismo, criatividade e construção de ambientes para viver e trabalhar na Sociedade do Conhecimento.

Desde de sua origem, o objetivo principal do 22@ foi muito além da transformação urbana do antigo bairro do Poblenou (antiga área industrial da cidade, conhecida com a Manchester Catalã), sempre voltada para gerar as condições favoráveis para a criação dos clusters tecnológicos definidos como estratégicos para a nova fase da cidade e a atração de empresas e pessoas altamente criativas e inovadoras. Neste sentido, o objetivo desde o início foi transformar o que era uma cidade típica das sociedades do século 19 em uma região líder global na sociedade do conhecimento, típica do século 21, em especial em atividades relacionadas à educação de alto nível, criatividade e inovação.

Inicialmente foram priorizados claramente cinco clusters, ou áreas, de conhecimento para atração de empresas, universidades e talentos: mídia (indústria criativa), tecnologias da informação e comunicação, design, tecnologias médicas (saúde) e energia. Foram definidas metas audaciosas, como gerar 150 mil empregos nestes clusters estratégicos, sendo que as áreas foram definidas em função de uma visão de futuro e de desafios a serem vencidos, e não somente nas competências existentes. 

Trata-se de uma abordagem top-down de desenvolvimento baseado na definição dos clusters estratégicos, chamando os atores sociais e econômicos, públicos e privados, a enfrentarem os desafios propostos.

Após mais de 20 anos do início do Projeto 22@, os resultados são impressionantes, seja na dimensão de reorganização do espaço urbano, seja nas novas matrizes de desenvolvimento da cidade. Todas as grandes universidades implantaram unidades na região do 22@, em áreas estratégicas (clusters de tecnologia) definidas pela cidade. Além disso, o poder público deslocou operações importantes de pesquisa e desenvolvimento de empresas públicas para a região. A construção civil investiu pesadamente nos novos prédios e aparelhos públicos de mobilidade urbana e de energia etc. Todas as metas físicas e econômicas foram superadas.

Finalmente, muitas lições podem ser aprendidas com o case de Barcelona. Dentre elas podemos destacar: (1) a importância do trabalho cooperativo, em parcerias públicas e privadas, no contexto dos Planos Estratégicos e do pacto pela Inovação na cidade; (2) o papel de liderança da Prefeitura (Municipalidade), com alto engajamento das autoridades locais do município, ao longo de governos sucessivos; (3) a construção do case do 22@, para transformar aquela região da cidade no modelo da nova cidade de Barcelona no século 21; e (4) alinhar as estratégias de desenvolvimento da cidade com os fatores críticos de sucesso na Sociedade do Conhecimento: criatividade, inovação e empreendedorismo.

Hoje, Barcelona e o Projeto 22@ são benchmarks internacionais de transformação urbana, social e econômica, tendo por base os valores próprios da Sociedade do Conhecimento, tornando-se um modelo para áreas de inovação e parques científicos e tecnológicos em todo o mundo. Este foi o modelo usado por países como a Colômbia e, mais especificamente, a cidade de Medellin, assim como o estado de Santa Catarina no Brasil. É um modelo que coloca universidades, governos, empresas e sociedade em articulação plena, em torno de um Pacto pela Inovação, desafiando-os a gerar as condições para o desenvolvimento da cidade e do território, gerando a transformação social e econômica necessária para uma nova sociedade que responda aos desafios e oportunidades do novo tempo em que vivemos.

*Superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e Professor Titular da Escola Politécnica da mesma universidade.


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