China cresce no Sul do Brasil

Mas há duas questões a resolver: o “desequilíbrio tecnológico” dos negócios e o déficit crescente da balança de SC

Por Milton Pomar

Porto de itajaí, em Santa Catarina

Empresários e governos da China movimentam-se com rapidez por todo o país, em busca de oportunidades de investimentos (bilionários, em vários casos), comércio e intercâmbios. Em sua maioria, são tratativas que começaram há alguns anos, e que agora caminham para a efetivação, seguindo a máxima chinesa que crise é “risco e oportunidade”. Ou seja, a maior movimentação chinesa em 2019 não é “apesar da crise” no Brasil, mas justamente por causa dela. Prova desse aumento dos negócios entre os dois países foi o recorde na balança comercial em 2018, de US$ 98,7 bilhões (US$ 23,9 bilhões a mais que em 2017 e US$ 40,2 bilhões maior que em 2016), sendo US$ 63,9 bilhões de exportações brasileiras, resultando em superávit de US$ 29,1 bilhões. 

A China é hoje o maior parceiro comercial dos três estados do Sul, responsável em 2018 por 29,1% das exportações gaúchas, 16% das catarinenses e 33,7% das paranaenses, segundo o Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Cresceram muito as vendas dos três estados para a China nos últimos anos, o que contribuiu para reduzir o impacto da crise nacional sobre a economia regional. 

Entretanto, a análise qualitativa das exportações e importações dos três estados com a China revela que há duas grandes questões a serem resolvidas: o “desequilíbrio tecnológico” dos negócios realizados e o déficit crescente, desde 2009, da balança comercial catarinense. Ainda que o sul do Brasil tenha inegáveis vantagens comparativas para a produção agropecuária, e o faça utilizando muita tecnologia, a realidade é que o setor emprega cada vez menos gente. As estatísticas do período 2008/2018 revelam a esse respeito um quadro preocupante: enquanto a média de manufaturados nas exportações da região foi de 40%-50%, a média nas importações foi de 80%-85%. Por isso, além de continuar exportando cada vez mais carnes e soja, é preciso aumentar a venda de manufaturados, pois a indústria continua sendo o setor que gera mais empregos, em quantidade, qualidade e nível de remuneração.

Quanto à balança comercial, na comparação 2008/2018 chamam muito a atenção os déficits de Santa Catarina: exportou para a China US$ 177 milhões em 2008 e importou US$ 1,62 bilhão; no ano seguinte, vendeu US$ 110 milhões e comprou US$ 1,7 bilhão. Essas grandes diferenças se mantiveram até 2018, quando o estado vendeu para a China US$ 1,46 bilhão e comprou US$ 5,07 bilhões – resultado oposto aos do Paraná, que vendeu US$ 5,9 bilhões e adquiriu US$ 2,3 bilhões, e do Rio Grande do Sul (US$ 6,32 bilhões e US$ 1,25 bilhão). A diferença é tão grande, que cabe estudar o que aconteceu com Santa Catarina, o “estado exportador” por excelência.

A visita do embaixador da China ao governador do Paraná, em maio, para ofertar investimento em obras de infraestrutura de transportes, faz parte da estratégia para aumentar a participação do Brasil no megaempreendimento BRI (Belt and Road Initiative), a “Rota da Seda do Século 21”. Melhorar a logística é uma necessidade histórica do Sul – e para a China a redução significativa dos custos de transportes do seu maior fornecedor de alimentos, minérios e celulose significa a possibilidade de redução de preços desses produtos no mercado mundial. 


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