Um país em campo

Sobre legados que vão além dos números – nas empresas e nos gramados

Por André D´Angelo

Óscar Tabárez em Uruguai x Equador pela Copa América 2019

Como se medem os méritos de um empresário ou de um executivo? Se você respondeu "pela lucratividade de suas empresas", pode estar perdendo a chance de conhecer o legado de alguns homens de negócio que não lograram manter suas companhias no azul (tanto que obrigados a se desfazer delas), mas ajudaram a construir setores inteiros e a inovar em matéria de marketing e produção – caso do gaúcho Paulo Vellinho e do italiano Roberto Civita, cujas trajetórias comento na edição 330 de AMANHÃ.

E como se medem os louros de um treinador de futebol? Por vitórias e troféus, somente? Então você está perdendo a chance de conhecer um personagem peculiar chamado Óscar Tabárez (na foto, à esquerda, no jogo Uruguai x Equador, no domingo).

Técnico da seleção uruguaia desde 2006, Tabárez resolveu fazer do escrete nacional mais do que um agrupamento sazonal de jogadores reunidos às vésperas de amistosos e torneios oficiais. Decidiu transformá-lo numa pequena embaixada de seu diminuto país, combinando, na escolha dos jogadores, critérios técnicos e comportamentais – e ministrando a seus comandados tanto orientações táticas quanto morais.

Um trabalho absolutamente sui generis, como mostra um ex-capitão do Uruguai, Diego Lugano, em entrevista à edição nº 8 da revista Corner. Segundo Lugano

"Tabárez (...) foi um sociólogo. Talvez em todo mundo não haja nenhum treinador que tenha modificado tanto a conduta ou os padrões sociais de um país como Tabárez através de nós, jogadores. O Uruguai, nas últimas décadas, havia caído em uma decadência (...) confundindo garra, raça (...) com violência, indisciplina. Enfim, (...) pouca visão sobre o que você representa como jogador da seleção, do alcance que você tem. Tudo (...) o que a seleção significa para o seu país".   

Como não basta um bom comandante para colocar um projeto em execução, o papel dos liderados foi fundamental:

"A gente [jogadores] teve essa visão e [combinamos] (...) que nosso comportamento dali para frente seria sempre ganhar, perder ou empatar com total educação para com o torcedor, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora. (...) A gente tomou ciência do nosso significado para o país, do que Tabárez queria de nós e começamos (...) um projeto de conduta (...)."

O objetivo? Inspirar cada um dos 3 milhões de habitantes do país:

"O uruguaio vê a seleção e diz (...) 'esses caras nos representam (...)'".

Os resultados até vieram sob a forma de vitórias e troféus, mas esses parecem menores perto de outros, menos usuais, como relembra o ex-jogador, com orgulho:

"[Para] Um pequeno país como o Uruguai a única chance de aparecer para o mundo é através do futebol. (...) [N]o mundial de 2010, quando a gente chegou até a semifinal, a palavra 'Uruguai', no Google (...) multiplicou-se por seis milhões de vezes (...). Isso equivale (...) a cem anos de trabalho do Ministério das Relações Exteriores (...). Fomos jogar na China em 2011. Uns dez empresários diferentes (...) vieram nos agradecer porque a gente permitiu, através do futebol, a entrada de lã, trigo, carne, diferentes produtos no mercado chinês (...)." 

Um resultado em especial, aliás, encheu de contentamento o 'Maestro' (Professor) Tabárez:

"[E]m 2010, a seleção uruguaia foi escolhia pela Academia Espanhola de Letras como a seleção que melhor se expressou em língua espanhola. Tínhamos seis ou sete seleções falantes de espanhol [naquela Copa do Mundo]. (...) Eu nunca vi um cara tão feliz. (...) [S]eus olhos brilhavam". 

Pois bem: quando a gloriosa Celeste Olímpica pisar no gramado da Arena do Grêmio, na próxima quinta-feira (20), entrará em campo como "um bastião, uma reserva de valores" do país que representa, nas palavras de Diego Lugano. Para ganhar, perder ou empatar, mas sempre com respeito – pois tanto no futebol quanto nas empresas, nem todo mérito é aferido somente pelos escores do placar eletrônico ou de um balancete anual.


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