Na morte como na vida

"Maré Boa" quis ser lembrado pela sua ligação com a vida boemia, palco de fantasias e congraçamento

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Valdívio Soares Pereira, o "Maré Boa"

Leio que Valdívio Soares Pereira, o "Maré Boa" (foto), morreu no último fim de semana aos 68 anos em Barão de Cocais (MG), depois de uma vida consagrada à boemia. Esse ex-taxista de Belo Horizonte passou ao largo do diabetes e das chateações da saúde, nos últimos tempos agravada por deficiências na visão e, numa prova de coerência e de amor ao estilo de vida que abraçou, pediu aos filhos e amigos que fosse velado num bar, com farta distribuição de cerveja e cachaça para os amigos, e crédito ilimitado para que os presentes pudessem ouvir música no jukebox, a proverbial radiola de ficha, como é conhecida aqui no Nordeste. Não contente com a animada farra de corpo presente, as cinzas de "Maré Boa" serão mais tarde depositadas num boteco, ao lado de uma estátua de Nossa Senhora Aparecida.

À medida que avançamos nos anos, é de se esperar que as deliberações que pontuam a intersecção da vida com a morte comecem a ganhar corpo. "Maré Boa" pode não ter entregado os pontos. Segundo os filhos, continuou a dizer sim à vida até mesmo quando abria uma garrafa de cerveja e a sorvia deliciado, à revelia da interdição médica. Resignado ao preço que teria a pagar, transformou seu instante derradeiro numa celebração. Imagino que tais pensamentos perpassem a cabeça de muita gente que vê a linha de chegada se aproximar. Bem a propósito, conversava na terça-feira à noite com um amigo acerca dessas vicissitudes. Disse ele que queria ser enterrado ao som de "O bêbado e o equilibrista", música da época dourada de sua vida. Instado a dizer minha preferida, chutei alto: "Spartacus", de Aram Khachaturian, ideal para velórios. 

Trilha sonora à parte, o que conta em alguma medida é saber que sentimentos ficarão para trás, a depender de nossa vontade. "Maré Boa" quis ser lembrado pela sua ligação com a vida boemia, palco de fantasias e congraçamento. Em meu caso, ainda que não tenha as veleidades extravagantes desse homem admirável, alimento o desejo similar e dispenso lágrimas. Afinal, quando morrer, não vou levar ressentimentos de qualquer ordem, sequer das pessoas vis que conheci. Tampouco grandes arrependimentos, salvo por não ter sido um pouco mais receptivo quando se abriram as comportas de alguns amores, para além dos que vivi. No dia seguinte a meu enterro, queria que o advogado chamasse logo algumas pessoas para lhes destinar o pouco que deixarei. Assim elas não perderão tempo com conjecturas e já saberão o que as espera. 

Seja como for, com muito pouco a legar, caberá um pequeno cheque para meus primos para que façam uma viagem estilosa a Paris, onde deverão numa madrugada de farra, jogar minhas cinzas no Boulevard Saint-Germain, o mais próximo possível das cadeiras do café Flore. O ônus será o de dar destino criterioso a mil livros de que gosto muito, e que poderiam ir para a biblioteca de Garanhuns, se garantidas boas condições de conservação. Sem desculpas a pedir a quem quer que seja, e sem exigir de alguém o mesmo, partiria tranquilo, certo de ter ido aos limites, embora lamentando não ter desfrutado de uns bons anos nos Pirineus, de uma água-furtada londrina ou de uma fazendinha cheia de amor e paz, de ensurdecedor silêncio. Certo é que tem gente que não nasceu para viver com limitações. Foi o caso de "Maré Boa". E será o de tantos outros.      

A ordem é viver. Para a morte, como diz um primo, já temos passagem comprada. Mais difícil é saber quando será anunciado o embarque.


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Israel Beigler

Depositar as cinzas num bar é um perigo ! Alguém pode confundir com pimenta-do-reino !

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