O mestre-sala "Capoeira"

O lado bom da divulgação dessas imagens é que o caráter espontâneo e nada promocional do gesto calou fundo na sociedade

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Varlei Rocha Alves faz ponte criativa para ajudar idosa durante enchente no Rio de Janeiro

Varlei Rocha Alves, 50 anos, o "Capoeira", é o autor da "ponte criativa" (reprodução) que o alçou à posição de mais querida das celebridades instantâneas brasileiras. Sob o aguaceiro que castigou o Rio de Janeiro no começo da semana, o Brasil e o mundo viram quando ele improvisou um caminho seguro sobre a água para que uma senhora pudesse chegar à outra calçada com os pés quase enxutos. 

A cena é de grande beleza. Como se fosse um mestre-sala de escola de samba em plena avenida, Varlei estendeu a mão com elegância para que a senhora se apoiasse, minimizando o risco de um escorregão dos caixotes na água fria. Com paciência e foco na tarefa, uma missão a que se dava visivelmente por completo, eis um flanelinha que nos deu ver uma página de nobreza, de apelo universal. 

O que mais me chocou, contudo, foi a reação da famigerada banda de "haters" da internet. Mal as imagens foram veiculadas, alguns já assacaram do embornal das amarguras os piores clichês: cenas de "Casa Grande e Senzala"; a volta da escravidão; um traço do Brasil colônia, e patacoadas afins. Disseram tudo de truncado e vicioso, mas falharam candentemente na interpretação do gesto em si.  

Tive o privilégio de conviver com muitos "Capoeira". Amigos que fiz na infância, nas margens do rio Capibaribe, lá no Recife, e que me acompanhariam pela vida, sempre se mostraram capazes de gestos assim e de muito mais. Quem conhece nosso povo de verdade, não ficou nada surpreso com o gesto. Já quem o conhece só de livros e academia, pode sim ter tirado conclusões sinistras.  

O lado bom da divulgação dessas imagens é que o caráter espontâneo e nada promocional do gesto calou fundo na sociedade. É como se resgatasse a esperança coletiva num país solidário. A ponto tal que Varlei virou uma espécie de unanimidade, o que lhe valerá a tão sonhada casa na Pavuna onde pretende viver com o filho. De agora em diante, parece que o céu é o limite.  

Os tais "haters" devem estar com ódio com o fato de que o tiro tenha saído pela culatra e que a indústria do ódio ideológico não tenha prosperado na cola de um momento bonito de celebração da brasilidade. E, o que é pior de tudo para eles, que a vida do brioso Varlei tenha ficado melhor. Para eles, felicidade e grandeza não podem prevalecer sobre a raiva surda e comezinha. 

Obrigado, Varlei. 


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